CANAL DE SÃO ROQUE

CANAL DE SÃO ROQUE

Foto de Gabriel Pereira




sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

BASTA-ME POUCO



Foto de Piedade Araújo Sol



                  
       BASTA-ME POUCO
           Carlos Pereira


Basta-me pouco, quase nada,
E é tão pouco o que ambiciono;
         Nunca tive de mão beijada
O muito pouco do que sou dono.

Basta-me pouco, não reclamo;
Guardo tudo por que tenha apreço.
Como toda a gente, também, clamo,
Mas apenas, aquilo que mereço.

Nesta vida de seis décadas, aprendi,
Dar às coisas pueris algum valor;
Desse dar tão pouco nunca me arrependi.

Às vezes o que aparenta ser dor,
No olhar triste de quem, triste, sorri;
Não é mais do que a falta de amor.


                  Aveiro, 25.01.2011










sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

SERENO ENTARDECER



Foto de Piedade Araújo Sol


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SERENO ENTARDECER
Carlos Pereira


Sereno entardecer
De paz e calma.
Quero-te, assim ter,
Amor, na minha alma.

Sinto teu doce olhar
No meu, sedento.
Coração a navegar
Pelo teu mar adentro.

Meu coração argonauta
No teu mar se aventura,
Para ouvir a música da flauta
Que em teu olhar perdura.

No mar dos teus olhos
Há muito para desvendar.
Seus segredos são escolhos
Que me hão-de naufragar.


Aveiro, 07.02.2011

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

MARNOTO





O MARNOTO

Com este humilde soneto, pretendo homenagear a figura do marnoto que labuta nas salinas de Aveiro, garantindo o sustento da sua família.


                          
         MARNOTO
     Carlos Pereira


Agricultor sem arado,
A salina é a sua leira;
Amanha-a esperançado,
Para o sal, ter na eira.

Se o verão tiver sol forte,
Bem quente a nortada
E não for madrasta a sorte;
A safra será angariada.

Escultor de cristais de sal
Num trabalho árduo, ignoto;
Para ter o pão de cada dia.

Arte bela, glória sem igual,
Que o talento do marnoto;
Esculpe com a água da ria.

  
           Aveiro, 01.01.2011


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

VOANDO SOBRE O DORSO DA MONTANHA



Foto de Carlos Óscar Pereira




       VOANDO SOBRE O DORSO DA MONTANHA 
                                         Carlos Pereira 
        
       


         Voando sobre o dorso da montanha
Num voo planado de séculos;
Estou quase a misturar-me com os astros.
Não no seu interior misterioso,
Mas no exterior dos seus rostos;
Disfarçados com máscaras de nebulosas,
Num carnaval tão terráqueo.

Voei léguas de luz em tapetes de estrelas
Enquanto floresciam lâmpadas de ócio.
Antes do meu voo, já os restos mortais do meu sonho
Jaziam como estátuas de sombras;
De nada valeu o meu pedido aos deuses,
Para colorir o universo em tons de solidariedade.


                              Aveiro, 02.02.2011




sábado, 29 de janeiro de 2011

DESSE TEMPO







                      
                  DESSE TEMPO
                  Carlos Pereira                  


No chão longínquo da minha origem,
Sulcam águas de felicidade
Nos regatos da minha infância.
                  Desse tempo recordo-me,
Do olhar sereno, feliz, da minha mãe;
Orgulhosa da sua prole.


                 Aveiro, 04.01.2011




sábado, 22 de janeiro de 2011

SÃO TEMPOS DE BRUMA






  SÃO TEMPOS DE BRUMA
           Carlos Pereira


         São tempos, estes, de bruma
Que nos tornam entorpecidos.
Não há rei que se assuma
Neste reino de empobrecidos.

São tempos, estes, de seca;
No rio quase não corre água.
Há indultos para quem peca…
E lágrimas de tanta mágoa.

Grassa, jocosa, a indecência…
Vive, impune, a obscenidade…
Premeia-se, a ufana insciência.

Nesta coutada, neste arraial,
A mentira travestida de verdade;
Consagrou-se bravata nacional.

                Aveiro, 21.01.2011
                                              







                                              

         

sábado, 15 de janeiro de 2011

CREPÚSCULO



Foto de Salete Pereira


                                                      

                    CREPÚSCULO
                   Carlos   Pereira

                    

Crepúsculo; diáfana luz de cristal…
Em tuas asas vem descendo a Eternidade;
Feita de estrelas e sois de mar e sal
Numa fusão de constelações sem idade.

Nessa luz mágica e transcendental
Sonho mundos de fraternidade;
Onde todo o homem será igual
Em sua grandeza e genialidade.

Para lá dos horizontes da exactidão;
Busco, incessante, a verdade e a razão
Para vencer o caminho da incerteza.

Que a tua luz viva só mais um instante
Na duração fugaz d’ um olhar distante;
Que minha alma a sorrir manterá acesa.

                                        
                       Aveiro, 13.05.2010