CANAL DE SÃO ROQUE

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Foto de Gabriel Pereira




quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O CAMINHO DOS HOMENS INCRÉDULOS

 
 
Foto de Carlos Pereira
 
 
 
 
 
 
O CAMINHO DOS HOMENS INCRÉDULOS

Carlos Pereira
 



O caminho dos homens incrédulos é duro,

mas pode ser suavizado pela dúctil esperança

que embala os sonhos e

castra a raiz à descrença

e à dor fragmentada que agoniza os dias.
 


O caminho dos homens incrédulos é longo,

mas pode ser encurtado pelo pensamento amotinado

que refresca o ar da respiração.
 


O caminho dos homens incrédulos é um livro,

com muitas páginas em branco que, teimosamente é lido,

da frente para trás, para de uma forma consciente e deliberada,

tomarmos conhecimento antecipado das palavras

que arquitetam a nossa memória final.
 
 

Aveiro, 30.04.2012


 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O ÚLTIMO VERÃO

 
 
Foto de Carlos Pereira
 
 
 
 
 
 
 
O ÚLTIMO VERÃO
Carlos Pereira
 
Os últimos raios de sol invadem-me como carícias das tuas mãos meigas
Nadei até á exaustão no mar dos teus seios
e ao chegar à última onda
debrucei-me para enfeitar os teus cabelos com os peixes de prata
que apanhei na praia quando descalcei os sapatos à maré vaza
 
Segredaste-me que era o último verão que passávamos juntos
 
Era a tua derradeira esperança de me veres chorar
 
Garanto-te que não vou chorar, nunca choro nas despedidas
 
Só admito chorar ou o mar por mim
se nele não encontrar estrelas
para pendurar no tecto do teu céu como te prometi
 
 
Aveiro, 19.04.2012
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 
 

 

 

 

 



quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O INSTANTE PODE SER

 
 
Foto de Carlos Óscar Pereira
 
 
 
 
 
 
 
 
O INSTANTE PODE SER

Carlos Pereira
 
 
O instante pode ser o relampejo antes do trovão ou
a face branca de uma luz suspensa,
na perpendicular da árvore ou ainda uma seara
de frutos maduros a respirar o ar que a montanha sopra.
Pode ser a folha seca, caindo da árvore abandonada,
num ziguezaguear dolente, desafiando a morte.
Pode ser o voo lento da gaivota, ressaltando
na plumagem do mar onde as ondas são,
vagarosas penas na alma dos poetas.
 
 

Aveiro, 02.07.2012

 

 

 



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

AUSÊNCIA

 
 
Foto de Carlos Pereira
 
 
 
 
 
 
 
 
AUSÊNCIA
Carlos Pereira
 
Nenhum pensamento me seduz mais que o silêncio;
Embora saiba que o silêncio é a ausência de ti.
Abrirei o sulco à palavra nascida dessa ausência e,
Guiá-la-ei no trajecto espúrio da minha vontade.
Erguerei o meu olhar na direcção do horizonte
Na esperança de ver-te regressar ao vazio do meu peito.
 
Aveiro, 27.07.2012


 


domingo, 7 de outubro de 2012

TENHO QUE FAZER UM POEMA

 
 
Foto de Carlos Pereira
 
 
 
 
 
 
 

TENHO QUE ESCREVER UM POEMA
Carlos Pereira
 
Sentei-me ao lado da janela na,
única mesa que tem apenas uma cadeira.
Assim, ninguém perturbará o silêncio
das palavras que me chegam do sol nem
o voo da ave que limita o espaço entre o papel e o poema.
Não pertenço a este lugar, aliás, nunca pertenci
a lugar nenhum. Os lugares é que me pertencem,
emocionalmente, porque os absorvo em cada gesto
do meu olhar; em cada momento de pausa
na inspiração da terra; em cada espaço em que a pedra
se agita e a tua imagem surge bela e granítica.
Há no ar, acordes de uma canção com esboços
do teu corpo a pairar no equilíbrio da manhã.
Os meus olhos incendeiam-se e a minha mão
tremula, indecisa, entre o verso que não nasce e
o punho que desenha o teu ventre numa tela
harmoniosa de água e fogo.
Não vou escrever as palavras que sonhei de noite,
enquanto os barcos com velas e homens, feitos
de ansiedade, retornam ao porto de onde nunca saíram.
Tenho que escrever um poema; não com palavras dos poetas
que essas não sei, mas com as palavras que saem das
tuas ancas que giram ao sol e dos teus músculos
que retêm o barro que nos modela; com as sílabas
do teu corpo, com os versos dos teus braços que
me abraçam com as raízes da árvore que bebe a água do rio e
que há-de levar-me até ao mar da minha infância.
Tenho que escrever um poema, mas a minha mão
ainda tremula, indecisa, entre o verso que não nasce e
o poema de palavras inúteis.
 
 

Aveiro, 27.06.2012

 

 

 

 



terça-feira, 25 de setembro de 2012

ATENTO DISCÍPULO

Foto retirada da Net
 
 
 
 
 
 
 
ATENTO DISCÍPULO
 
Carlos Pereira
 
 
 
Os pés do menino, descalços, seguiam
 
O sulco húmido do arado, puxado
 
Pela dócil parelha de vacas amarelas,
 
Que o Ti Xico, sabiamente conduzia
 
Com a mão esquerda, tisnada
 
Pelo sol de muitos anos. Na direita,
 
Uma pequena vergasta de vime,
 
À qual só dava serventia na mudança de rego,
 
Batendo mais na canga do que nos nobres animais;
 
Ajuda prestimosa na manobra rotineira
 
A cada novo sulco esventrado à terra.
 
Era visível de forma indelével,
 
A conivente irmandade entre homem e animais.
 
As lavandiscas esvoaçavam num afã meticuloso
 
Na esperança de uma refeição de vermes subtérreos,
 
Que o arado, generosamente, punha a nu.
 
Todos trabalhavam para granjear o árduo
 
Sustento. O menino era, na maior e mais sábia
 
Sala de aula, um atento discípulo.
 
 
 
 
Aveiro, 05.06.2012
 
 
 


sexta-feira, 7 de setembro de 2012

HAICAIS

 
 
Foto de Carlos Pereira
 
 
 
 
 
 
 
HAICAIS
Carlos Pereira
 
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Onda profunda.
Longínquo som. Profícuo
saber que inunda.
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Mar azul agitado,
convulsão na praia. Emoção.
Teu amor lembrado.
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Onda gigante.
Pôr-do-Sol. Magia. Arrebol
no teu semblante.
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Aveiro, 25.08.2012