CANAL DE SÃO ROQUE

CANAL DE SÃO ROQUE

Foto de Gabriel Pereira




quarta-feira, 4 de junho de 2014

O POEMA



Foto de Carlos Pereira




O POEMA
Carlos Pereira
 
O poema não será nada mais
para além do que a palavra permitir
no fugaz momento de uma sílaba,
acocorada na pele de um tambor.
 
Será a estrada que nos conduz
através do sinuoso declínio do homem
enquanto ser superior numa hierarquia,
mesquinha e manipuladora.            
 
Será o toque a rebate para nos unirmos
no adro da consciência imaculada
para derrubarmos os exércitos eufemísticos,
que teimosamente nos garroteiam.
 

 

Aveiro, 03.03.2014

 


sexta-feira, 16 de maio de 2014

NUNCA SABEREI TUDO



Foto de Carlos Pereira






NUNCA SABEREI TUDO

Carlos Pereira

 

 

 

Nunca saberei tudo! Ninguém sabe tudo!

Saber mais deve ser o objectivo de cada um,

para poder afirmar: nunca saberei tudo.

 

Quem quer saber mais, aprende.

Quem aprende, sabe mais.

Sabe mais.

Sabe tanto.

Sabe tanto ou mais.

Sabe muito.

Sabe muito mais.

Sabe mais ou menos, para dizer que nunca saberá tudo.

 

Se perguntarem a quem sabe muito, por que é azul a água do mar, responderá:

- Esta questão tem a ver com a Física; o que determina a cor

é a quantidade de luz solar que incide sobre a água e a sua profundidade,

as partículas suspensas nela e o comprimento de onda da luz que é reflectida.

 

Se me perguntarem, a mim que sei muito pouco, respondo:

- O mar é o céu com água e com peixes em vez de estrelas.

Mas isso sou eu que sou poeta.

 

Quem me dera não saber nada, eu que sei tão pouco.

Assim não discordava do que dizem os que sabem tanto ou, tanto ou mais, muito ou

muito mais, e, esses não se davam ao trabalho de discordar das minhas opiniões,

porque eu nem sequer dominava os argumentos para as emitir, malgrado meu.

 

Por que somos tão próximos das pedras, das árvores, dos rios e dos montes,

dos mares e do sol que nem sequer pensam ou sabem que existem?

 

É na ambiguidade de uma possível resposta a esta simples semântica
que assenta a evidência do meu princípio opinativo:

Nunca saberei tudo! Ninguém sabe tudo!






Aveiro, 08.05.2014

Publicado no Diário de Aveiro

 


terça-feira, 13 de maio de 2014

NÂO DEMORES O MEU ABRAÇO



Foto de Carlos Pereira




NÃO DEMORES O MEU ABRAÇO
Carlos Pereira
 
 
Deambulo entre a multidão na cidade desperta
Mas sinto-me tão só com a tua ausência.
Um nó de saudade o meu coração, aperta,
E aviva a sensata lembrança da tua existência.
 
Os meus sentidos estão em estado de alerta
Num anseio ardente da tua comparência
Para que a minha alma de tristeza, coberta,
Rejubile e apague a dolorosa impaciência.
 
Não demores o meu abraço nem a palavra amor,
Que te darei num beijo tão puro e soletrado.
Vem, não adies esta melancolia, quase dor.
 
Não voltes ao meu sonho tantas vezes sonhado
Sem te ver mais um dia. Ao céu um louvor
Enviarei se te vir no meu sonho, acordado.
 
 
Aveiro, 21.06.2013 

Publicado no Diário de Aveiro

 

 

 

 

 

 

 

 

 


sexta-feira, 9 de maio de 2014

APENAS



Foto de Carlos Pereira





APENAS
Carlos Pereira
 
Sou,
entre os teus olhos e o relâmpago;
Água e fogo.
Desejo secreto de ti.
 
És,
entre a madrugada furtiva e o estremecimento;
Asas e vertigem.
Desejo incendiado de mim.
 

Aveiro, 04.04.2014

 


quarta-feira, 30 de abril de 2014

REBANHO ALINHADO



Imagem retirada da Net




REBANHO ALINHADO
Carlos Pereira
 
Carneiros! São tantos em “manada”,
Dispersos ou em fila indiana.
Não lutam, absolutamente, por nada;
É da sua (nossa) condição humana.
 
Dizem ámen a tudo. Tudo está bem.
Nunca se libertaram de Santa Comba Dão
E aceitam São Bento mais Belém.
Ao domingo mendigam a bênção.
 
O medo cresce nas pastagens e nos redis.
Os pastores, cães já não têm. Os lobos vis,
Roubam cada vez mais e mais a sua (nossa) lã.
 
Rebanho alinhado e manso à portuguesa.
Porque morreu no monte Catarina, a camponesa,
Se não há sol e pão para todos em cada manhã.
 
 

Aveiro, 06.02.2014

Publicado no Diário de Aveiro

 

 

 

 

 

 





sexta-feira, 25 de abril de 2014

ESTE PAÍS DE ABRIL









 
Foto retirada da Net




ESTE PAÍS DE ABRIL
Carlos Pereira

 

Este país de Abril que eu vivi
Cantando canções sem idade
Este país de Abril que eu ouvi
Gritando ao mundo liberdade

 
Este país de Abril que eu senti
Distribuindo cravos de igualdade
Este país de Abril que eu assisti
Exultando laços de fraternidade

 
Este país de Abril que eu sofri
Com tamanha falta de lealdade
Este país de Abril que eu aqui
Repudio a anunciada letalidade




Aveiro, 25.04.2014







VIAGEM




Foto de Carlos Pereira













25 de Abril
Neste dia, em homenagem singela mas muito merecida ao Dr. Mário Sacramento, (natural de Ílhavo, distrito de Aveiro) grande lutador anti-fascista, que sofreu as atrocidades dos algozes do regime, tomo a liberdade de postar este humilde poema.


VIAGEM
Carlos Pereira

Nunca o mundo necessitou tanto de um pulso amplo e sedutor
para granjear consciências indefectíveis no combate às mentes
preconizadoras do caos urbano.

Avança no caminho pedregoso que te destinaram.
Usa o galope da tua derradeira coragem na corrida desleal.
Submete a tua frágil capacidade de entendimento dos homens
a todos os deuses que encontrares.
Procura na estrela branca de um céu acabado de nascer
a equação do teu destino.
Forja um horizonte de alegria límpida como a claridade da água dos rios
que inundará as margens sedentas do atro tempo que nos consome.
Abriga-te numa caverna de silenciosos líquenes
e ouve a palavra nua, ávida de sóis,
que germinará em todas as pátrias.

Na tua viagem de retorno, assome ao terreiro da montanha mais alta
e promove um abraço colectivo de esperança entre os homens,
para que sejam apenas homens e não obreiros endeusados
de um universo vazio e estéril.



Aveiro, 10.03.2014
Publicado no Diário de Aveiro