CANAL DE SÃO ROQUE

CANAL DE SÃO ROQUE

Foto de Gabriel Pereira




sábado, 1 de janeiro de 2011

SINTO QUE NÃO FIZ TUDO



Foto de Gustavo Martins



              
       SINTO QUE NÃO FIZ TUDO
                  Carlos Pereira



Sinto que não fiz tudo para afastar
As sombras de silêncio dos teus olhos;
Para te levitar num segundo que fosse
E voarmos em segredo nas asas do vento;
Numa viagem sem regresso anunciado
Até à nossa estrela preferida.

Sinto que não devia ter-me esquecido
De te dizer que as palavras …
São mais importantes que os gestos;
Estes podem impressionar os sentidos;
As palavras entram-nos na alma
E ficam eternamente reféns dela.


                                 Aveiro, 13.10.2010


                   Publicado no Diário de Aveiro


domingo, 26 de dezembro de 2010

POETA NÃO SOU



Foto de Piedade Araújo Sol








      POETA NÃO SOU
        Carlos Pereira


Poeta não sou… e sê-lo;
É miragem de oásis.
Engenho; não vou tê-lo…
Se a arte não acompanha o lápis.

Mesmo assim, teimo e escrevo;
Palavras simples, irmanadas
Em abraços de ternura e enlevo;
Por minha alma pintadas.

Verso que de mim se aparta,
Num frémito pungente…
Se for para o céu; então que parta.

Para mitigar a dor de o sentir ausente,
Aos deuses rogo que me envie uma carta
De saudade… com uma estrela cadente.

                
                                
                        Aveiro, 06.04.2010   






sábado, 18 de dezembro de 2010

NESTE RIO DE MEMÓRIAS



Foto de Gustavo Martins




         NESTE RIO DE MEMÓRIAS
                    Carlos Pereira



Neste rio de memórias onde me deito
Num barco feito de vento e de nuvens;
Escuto a canção que tu cantavas,
Para que eu sorrisse e sonhasse.

Ouço a tua voz feita de pedaços de céu,
De estrelas, de palavras inventadas
Na imensidão dos teus sorrisos,
Para que eu vença a íngreme estrada.

Quero adormecer contigo por perto;
Envolto na suavidade do teu olhar
E nesse teu jeito de amar tão sublime,
Para que eu renasça em cada manhã.


                    Aveiro, 10.12.2010

sábado, 11 de dezembro de 2010

AI DE NÓS!



Fotos de Piedade Araújo Sol




                                                       
    AI DE NÓS!
 Carlos Pereira


                    Grão de areia
Grão de arroz
Canto de sereia
Ai de nós!

Vetustas pontes
Duros trilhos
Secam fontes
Ai dos nossos filhos!

Canto da cigarra
Formiga no lamaçal
Uva pouca, muita parra
Ai de Portugal!


       Aveiro, 04.12.2010

sábado, 4 de dezembro de 2010

AO POETA TUDO É PERMITIDO

Foto de Gustavo Martins




                  AO POETA TUDO É PERMITIDO
                                Carlos Pereira


Tudo é permitido ao poeta;
Fingir, amar, até mentir.
Não tem vocação de asceta;
Na contemplação o mesmo sentir.

Ao poeta tudo é permitido;
Finge preocupação com o porvir.
A palavra, seu bem mais querido,
Sustenta-o nesse seu fingir.

Prefere a curva à linha recta;
Aumentando, assim, o caminho
Do sonho e da ilusão suprema.

Do cupido, anseia a doce seta
Do amor que lhe dará ninho;
Onde o espera o mais belo poema.


               Aveiro, 12.10.2010




sábado, 27 de novembro de 2010

PESCADOR



Foto de Piedade Araújo Sol




                                              

              PESCADOR
                        Carlos  Pereira


Com secular sabedoria, afoiteza;
Porfias, honrado, o teu ganha-pão.
As redes em tuas mãos, com destreza;
Lanças, acompanhadas de oração.

De pé, junto à proa, em comunhão
Com o céu e o mar, igual firmeza,
Dos que em terra com devoção;
Rezam crentes, a mesma certeza.

Nossa Senhora dos navegantes, velai,
Pelo meu homem se o mar encapelar:
Ilumina-lhe o caminho duro para o lar.

Meus rogos, minhas preces, aceitai,
Em troca, dou-Te não prata ou ouro:
Dou-Te a alegria dos filhos, seu tesouro.


                   Aveiro. 02.11.2010


                           Publicado no Diário de Aveiro

sábado, 20 de novembro de 2010

O SONHO DE ABRIL



Foto de Gustavo Martins


             


                  O SONHO DE ABRIL
                       Carlos Pereira




Portugal, país de imemoriais tradições;
Nação gloriosa desde os anais da história,
Não chama nunca, aos que roubam, ladrões,
E transforma a derrota sempre em vitória.

Orgulhamo-nos do teu passado das descobertas,
Das odisseias cantadas pelo magnânimo Camões,
Mas nunca conseguimos sarar as feridas abertas,
E do padre Vieira não escutámos seus sermões.

O sonho de Abril esfumou-se em milhões de miríades!
A luta pelo poder e a guerra de interesses prevalecem…
O país tornou-se numa atarefada feira de vaidades,
Onde os menos afortunados, constantemente, padecem.

A corrupção é bandeira há muito instituída
Com o beneplácito dos sábios governantes.
A democracia cada vez menos conseguida;
Ignora o povo e torna-o pobre como dantes.


                         Aveiro, 26.02.2010