CANAL DE SÃO ROQUE

CANAL DE SÃO ROQUE

Foto de Gabriel Pereira




segunda-feira, 21 de março de 2011

ÁRVORE



Foto de Carlos Óscar Pereira
        
Este poema pretende ser, apenas, um singelo
Tributo ao Dia Mundial da Poesia e da Árvore.

          
ÁRVORE
Carlos Pereira


Árvore! Ramos de vida,
Mãe solitária
Sombra solidária,
Tantas vezes esquecida.

És do mundo, universal!
Metafísica da raiz
Essência d’ um país;
A florir um riso verde, real.



Aveiro, 21.03.2011

sexta-feira, 18 de março de 2011

DO BAÚ DA MINHA MENTE





Miniatura
Joselito no filme Marcelino, Pão e Vinho
Imagem retirada da Net







DO BAÚ DA MINHA MENTE
Carlos Pereira




Nas recônditas lembranças improváveis
Do baú da minha mente,
Acendeu uma luz distante, amarela e profusa;
A luz, por ser amarela, só poder ser da torcida
Do candeeiro a petróleo que iluminava
As paredes e os tectos das minhas noites,
Nessa longínqua idade dos seis anos.
Ou seriam sete… talvez oito;
Eram oito com toda a certeza. Já lia bem,
Embora não entendesse tudo o que lia.
(Hoje entendo tudo o que leio,
Embora não leia tudo o que entendo).
Podia ter-me recordado dos deveres da escola;
Feitos à pressa, porque as brincadeiras já esperavam
No palco da rua, onde nos, transformava-mos em actores
De peças sempre improvisadas com cenários transparentes;
De lúcida alegria.
Podia ter rebobinado o filme das batalhas do faz de conta. - Lembras-te mano?
Que bom seria, que nas guerras disparassem só balas de amizade; iguais às nossas.
Podia ter-me recordado das naus que transportavam os nossos sonhos;
As aventuras de marinheiros em mares sem Adamastores.
Mas, o que aporta ao cais da minha memória com uma nitidez imarcescível;
É a recordação da minha primeira matiné, levado pela mão do meu avô materno.
O filme chamava-se, se bem me lembro: Marcelino, Pão e Vinho.
Joselito, o rouxinol das montanhas, com a sua voz, quase divina,
Fazia de conta, tal como nós, no mesmo palco da vida.

Aveiro, 14.03.2011

Publicado no Diário de Aveiro

 Dito no programa de fados e poesia, “Solar da Bairrada”, pelo fadista e poeta José Guerreiro na Rádio Província de Anadia







sexta-feira, 11 de março de 2011

ATRAVESSEI A CIDADE



Foto de Carlos Óscar Pereira


      
         ATRAVESSEI A CIDADE
Carlos Pereira


Atravessei a cidade toda,
De um para o outro lado;
Vagarosamente.
Com o vagar de quem não tem pressa
De chegar a lado nenhum.
Reconheci todos os recantos
Onde guardo segredos;
Todos os pássaros,
Toda a folhagem dos arvoredos,
Que se agita à passagem do vento.
Só não me reconheci a mim,
Porque dos meus passos, já não ecoa
A inocência, do meu tempo de criança.


Aveiro, 19.02.2011



sexta-feira, 4 de março de 2011

DESTE LADO DE CÁ DA BARRICADA









        DESTE LADO DE CÁ DA BARRICADA
        Carlos Pereira


Deste lado de cá da barricada imposta,
Estou eu, estás tu; somos os sonhadores.
Poetas simples de quem pouco se gosta;
Falta-nos a estirpe dos conquistadores.

Em nossa arte, a escol mor, não aposta.
Não temos a magia dos prestidigitadores,
Mas temos a força do gladiador que arrosta,
A ousada besta, que encerram os ditadores.

Herdámos a palavra que nos molda o perfil,
E como a adaga árabe, é faca de dois gumes;
Ora canta o poema, ora abjura o silêncio hostil.

A demanda da luz da verdade, é nossa empresa,
Que se quer mais pura que a dos vaga-lumes,
Para que a luz da esperança, se mantenha acesa.

       
                Aveiro, 07.02.2011
            Publicado no Diário de Aveiro



sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

BASTA-ME POUCO



Foto de Piedade Araújo Sol



                  
       BASTA-ME POUCO
           Carlos Pereira


Basta-me pouco, quase nada,
E é tão pouco o que ambiciono;
         Nunca tive de mão beijada
O muito pouco do que sou dono.

Basta-me pouco, não reclamo;
Guardo tudo por que tenha apreço.
Como toda a gente, também, clamo,
Mas apenas, aquilo que mereço.

Nesta vida de seis décadas, aprendi,
Dar às coisas pueris algum valor;
Desse dar tão pouco nunca me arrependi.

Às vezes o que aparenta ser dor,
No olhar triste de quem, triste, sorri;
Não é mais do que a falta de amor.


                  Aveiro, 25.01.2011










sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

SERENO ENTARDECER



Foto de Piedade Araújo Sol


´
                                 
SERENO ENTARDECER
Carlos Pereira


Sereno entardecer
De paz e calma.
Quero-te, assim ter,
Amor, na minha alma.

Sinto teu doce olhar
No meu, sedento.
Coração a navegar
Pelo teu mar adentro.

Meu coração argonauta
No teu mar se aventura,
Para ouvir a música da flauta
Que em teu olhar perdura.

No mar dos teus olhos
Há muito para desvendar.
Seus segredos são escolhos
Que me hão-de naufragar.


Aveiro, 07.02.2011

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

MARNOTO





O MARNOTO

Com este humilde soneto, pretendo homenagear a figura do marnoto que labuta nas salinas de Aveiro, garantindo o sustento da sua família.


                          
         MARNOTO
     Carlos Pereira


Agricultor sem arado,
A salina é a sua leira;
Amanha-a esperançado,
Para o sal, ter na eira.

Se o verão tiver sol forte,
Bem quente a nortada
E não for madrasta a sorte;
A safra será angariada.

Escultor de cristais de sal
Num trabalho árduo, ignoto;
Para ter o pão de cada dia.

Arte bela, glória sem igual,
Que o talento do marnoto;
Esculpe com a água da ria.

  
           Aveiro, 01.01.2011