CANAL DE SÃO ROQUE

CANAL DE SÃO ROQUE

Foto de Gabriel Pereira




domingo, 16 de outubro de 2011

O ÚLTIMO POEMA



Foto de Carlos Pereira



O ÚLTIMO POEMA
Carlos Pereira


Esta rua é demasiado estreita
Para nós, para os nossos sonhos.
Há muito que devíamos ter partido,
Deixar tudo para trás;
A raiz, o tronco, os ramos, as folhas,
Das nossas horas desbotadas.
Levávamos, apenas, o nosso amor.
Pelo caminho, falávamos só com o vento
E com as flores que nos acenassem.
Recordávamos os dias felizes e os dias
Em que o Sol, secou as lágrimas
Às estrelas que nos visitam.
Deixávamos uma carta para tranquilizar
Os muros e as sombras e a água do riacho
Que apaga o incêndio dos nossos silêncios;
Prometendo o regresso quando chegar
A hora de fazer, o último poema.



Aveiro, 07.10.2011







                              

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

BELOS E DECENTES



Imagem retirada do Google




          

BELOS E DECENTES
Carlos Pereira


Hoje, vou fingir que vivo num país decente
Ainda que não lucre nada com isso.
Todos devíamos fingir que vivemos num país decente.
Assim, talvez fosse mais decente este país,
Que não tem, de decência, quase nada.
Podia-se começar por melhorar as pessoas,
Não no seu lado estético.
Para isso, já existem os mil e um cremes anti quase, tudo;
A cirurgia estética, os prodígios do “silicone” e os SPAS;
Tudo ferramentas, para modificar ou melhorar,
O lado que menos interessa a um país decente.
Não se pode perder tempo com o seu lado supérfluo
Quando há tanto para fazer no seu lado intrínseco.
É urgente, é necessário, que saibamos transformar
O nosso percurso interior na persecução
De uma sociedade, em que todos nos sintamos,
Belos e decentes.

Aveiro, 15.09.2011

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

DEFRONTE DA MINHA CASA



Foto de Pedro V retirada da net






DEFRONTE DA MINHA CASA
Carlos Pereira


Defronte da minha casa há uma casa igual à minha
Só porque tem janelas e portas, mas não é da mesma cor;
A minha é branca, toda branca,
Menos a faixa em baixo a toda a volta que é azul;
Azul muito escuro, tão escuro que parece preto.
Quase toda a gente pensa que é preto, mas não é.
É azul. Se fosse preto, pensariam que era azul?
-Às tantas, se calhar.
Há pessoas que confundem as cores
E não se preocupam com isso. Fazem bem.
Que importância tem não saber a cor das casas
Ou até, confundi-las, mesmo que seja de propósito.
O que não podemos confundir são as pessoas
Que moram dentro delas ou fingem morar.
Nunca olho pela janela da minha casa
Para a casa defronte igual á minha,
Que não é toda branca nem tem a faixa azul,
Escuro, que parece preto.
Assim, não confundo as cores, nem as pessoas.


Aveiro, 16.09.2011



quarta-feira, 21 de setembro de 2011

NA PRAIA AQUÉM MINHO




Praia de Samil - Vigo
Foto retirada da Net




NA PRAIA AQUÉM MINHO
Carlos Pereira

 
O grito da gaivota, redesenhou
As marés dos meus dias de ócio,
Na praia aquém Minho.
Julguei-me órfão das copas dos pinheiros
E da bonomia das montanhas de olhar perdido,
Em horizontes em que o meu próprio olhar
Se perde e se delicia,
Na praia além Minho.
Ainda bem que trouxe comigo
Todas as palavras para este pôr-do-sol,
Num mar onde posso escrever
Os barcos que repousam na areia;
E que levarão a minha saudade.

Vigo, Praia de Samil, 28.07.2011


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O AR DENSO DA CIDADE



Foto de Carlos Pereira









O AR DENSO DA CIDADE
Carlos Pereira


O ar denso da cidade, aperta como tenazes,
A epiderme angustiada da minha garganta.
Na avidez de sufocar, te comprazes;
Sem broquel teu odor oxidado se agiganta.

Ó Deuses desçam da bruma impura, audazes;
Iluminem o breu da noite sacrossanta
De todos os homens, para que sejam capazes
De purificá-lo, por cada voz que já não canta.

Que o coração humano não seja, exânime,
No crer da bondade para o dorido mundo;
Mesmo que a maldade e a injustiça, o desanime.

Que a luz obstinada da sabedoria seja, o fanal,
Para iluminar o caminho insano e profundo,
Que torne o mundo num jardim universal.

Aveiro, 16.02.2011
Publicado no Diário de Aveiro


terça-feira, 6 de setembro de 2011

HOJE ACORDEI NEM TRISTE NEM CONTENTE



Foto de Carlos Pereira






HOJE ACORDEI NEM TRISTE NEM CONTENTE
Carlos Pereira


Hoje, acordei, nem triste nem contente.
Acordei assim, assim.
Sei que vou viver este dia
Tão igual aos outros em que acordei assim.

Farei um esforço para perceber os mistérios do Universo.
Por cada pulsar de vida que meus olhos fixarem,
Hei-de estar mais perto dos saberes dos homens;
Não da Verdade, que dessa, não vou saber nunca.



Aveiro, 08.03.2011











quarta-feira, 31 de agosto de 2011

TODA A POESIA É BOA



Esculturas com areia do rio do escultor José Monteiro
Foto de Carlos Pereira






TODA A POESIA É BOA
Carlos Pereira


Toda a poesia é boa
Para que a dor não doa.
Mais do que entendê-la,
É preciso saber lê-la.


Aveiro, 21.02.2011