CANAL DE SÃO ROQUE

CANAL DE SÃO ROQUE

Foto de Gabriel Pereira




quarta-feira, 11 de abril de 2012

EM ABRIL



Foto de Piedade Araújo Sol


EM ABRIL
Carlos Pereira


Deram-nos dias e primaveras de esperança
Em cravos vermelhos na mão de uma criança,
A força da palavra e a luz alva do dia,
A comunhão de todo um povo em alegria.
Fomos felizes, amámo-nos como irmãos;
Fizemos poemas, cantámos, demos as mãos.
Deram-nos a força da liberdade que corre nas veias.
Libertaram-nos da morte que a aranha tece nas teias.
Prometeram-nos searas de pão e alecrim aos molhos,
Trabalho todos os dias e cultura à noite para os olhos.
Deixámos de ser um povo triste e amordaçado!
Hoje, voltámos a ser de novo, um país desgraçado.


Aveiro, 04.04.2012

segunda-feira, 2 de abril de 2012

AMOR REAL



Foto retirada da Net




AMOR REAL
Carlos Pereira

Vassalo comprometido perante ti, sou,
Vergado ao encanto sedutor da tua aura.
Deste mundo, sem teu amor, me vou,
Num peregrinar de anacoreta sem laura. *

No renovar perpétuo da minha paixão,
Entrelaço-me nos braços áridos da dor.
Dos teus olhos a luz, é de compaixão;
Dos meus, é brilho translúcido do alvor.

Teu trono de rainha nunca o desejei,
Nem tão pouco a coroa da tua riqueza;
Minha espada, minha vida, te entreguei,

Como testemunhos da minha sageza.
Se no reino do teu coração, não entrarei,
Ao menos aceita este amor, com realeza.

Aveiro, 29.03,2012

*antiquado designação oriental de cada uma das celas utilizadas por alguns anacoretas.





quinta-feira, 22 de março de 2012

DO MAR JÁ SEI TUDO


Foto de Carlos Pereira





DO MAR JÁ SEI TUDO
Carlos Pereira

 

Se me vires de costas voltadas para o mar
Não concluas que sei mais da Terra.
Do mar já sei tudo.
Vivi todos os fluxos e refluxos das marés;
Exalei todos os aromas da maresia;
Fixei todas as tonalidades da sua pele.
Já senti a felicidade dos grãos de areia, rebolando
Para dentro da imensidão do seu corpo.
Conheço de cor todas as histórias dos piratas,
Mesmo dos que não têm pala no olho,
Nem perna de pau, nem gancho no sítio da mão,
Decepada pelo canhão dos homens bons.
Da Terra, sei muito pouco, quase nada.
Porventura, a culpa será minha porque não sei ler
As margens dos rios que correm nos vales da sua carne.
Sei apenas o que o muro,
Que ardilosamente erigiram diante dos meus olhos,
Me permite olhar.


Aveiro, 08.03.2012




sexta-feira, 9 de março de 2012

OS OLHOS DO MAR NUNCA MENTEM

Foto de Carlos Pereira




OS OLHOS DO MAR NUNCA MENTEM
Carlos Pereira


Os olhos do mar nunca mentem!
Por isso, escuto a tua voz na magia das ondas.
Não esbanjes as palavras;
Sussurra-me ao ouvido com o búzio da tua boca,
Poemas de amor.
Escreverei o teu nome para sempre
Na areia molhada do meu coração.
Com esse pedaço de felicidade, farei um barco
Que me levará todas as tardes para junto de ti
No mar verde dos teus olhos, inundando-me
De desejos pelo bafo quente de Verão do teu corpo.


Aveiro, 08.03.2012

sábado, 18 de fevereiro de 2012

RECADO PARA UMA CRIANÇA




Foto retirada da net






RECADO PARA UMA CRIANÇA
Carlos Pereira

Proíbo-te que chores, criança!
Não merecemos tuas lágrimas,
Aliás, não merecemos nada;
Não devíamos merecer absolutamente nada.
Às vezes também choramos, lágrimas podres,
Quando tens fome.
Lentamente, formatamos a tua dor
Em mini doses, com cozedura em banho-maria;
Para podermos ignorar-te por muito mais tempo.

Suplico-te que sorrias, criança!
Não merecemos teus olhos tristes
Nem a amargura do teu coração.
Astutamente; fingimos que sofremos
Com a tua absurda condição
Para podermos aspirar a divina redenção.

 Aveiro, 20.01.2012


 Publicado no Diário de Aveiro


domingo, 8 de janeiro de 2012

SONHOS NOCTURNOS



Foto de Carlos Pereira








SONHOS NOCTURNOS

Carlos Pereira





Sob a luz do dia, desprendem-se fragrâncias

De sonhos nocturnos,

Que me ajudaram a atravessar todo o Universo

E todos os Mares, embalado com o sal amadurecido

Pelos bocejos da noite.

Voltarei sempre a esta praia, onde os grãos de areia

Perpetuarão o pó das estrelas

E o pensamento evolutivo da Humanidade.





Aveiro, 07.01.2012






quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A NOSSA LÍNGUA



carcere peniche
Foto retirada da Net



A NOSSA LÍNGUA
Carlos Pereira


Não!
As palavras não são a nossa Língua,
Enquanto das encostas resvalarem fantasmas
Que se agitarão nos vales da noite;
Enquanto dormitarem almas sofridas
Na lareira onde arde o azinho dos nossos antepassados.
A nossa Língua só será de palavras
Quando esvaziarmos todo o sofrimento,
Dos cárceres que construímos.


Aveiro, 24.11.2011