CANAL DE SÃO ROQUE

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Foto de Gabriel Pereira




sexta-feira, 12 de outubro de 2012

AUSÊNCIA

 
 
Foto de Carlos Pereira
 
 
 
 
 
 
 
 
AUSÊNCIA
Carlos Pereira
 
Nenhum pensamento me seduz mais que o silêncio;
Embora saiba que o silêncio é a ausência de ti.
Abrirei o sulco à palavra nascida dessa ausência e,
Guiá-la-ei no trajecto espúrio da minha vontade.
Erguerei o meu olhar na direcção do horizonte
Na esperança de ver-te regressar ao vazio do meu peito.
 
Aveiro, 27.07.2012


 


domingo, 7 de outubro de 2012

TENHO QUE FAZER UM POEMA

 
 
Foto de Carlos Pereira
 
 
 
 
 
 
 

TENHO QUE ESCREVER UM POEMA
Carlos Pereira
 
Sentei-me ao lado da janela na,
única mesa que tem apenas uma cadeira.
Assim, ninguém perturbará o silêncio
das palavras que me chegam do sol nem
o voo da ave que limita o espaço entre o papel e o poema.
Não pertenço a este lugar, aliás, nunca pertenci
a lugar nenhum. Os lugares é que me pertencem,
emocionalmente, porque os absorvo em cada gesto
do meu olhar; em cada momento de pausa
na inspiração da terra; em cada espaço em que a pedra
se agita e a tua imagem surge bela e granítica.
Há no ar, acordes de uma canção com esboços
do teu corpo a pairar no equilíbrio da manhã.
Os meus olhos incendeiam-se e a minha mão
tremula, indecisa, entre o verso que não nasce e
o punho que desenha o teu ventre numa tela
harmoniosa de água e fogo.
Não vou escrever as palavras que sonhei de noite,
enquanto os barcos com velas e homens, feitos
de ansiedade, retornam ao porto de onde nunca saíram.
Tenho que escrever um poema; não com palavras dos poetas
que essas não sei, mas com as palavras que saem das
tuas ancas que giram ao sol e dos teus músculos
que retêm o barro que nos modela; com as sílabas
do teu corpo, com os versos dos teus braços que
me abraçam com as raízes da árvore que bebe a água do rio e
que há-de levar-me até ao mar da minha infância.
Tenho que escrever um poema, mas a minha mão
ainda tremula, indecisa, entre o verso que não nasce e
o poema de palavras inúteis.
 
 

Aveiro, 27.06.2012

 

 

 

 



terça-feira, 25 de setembro de 2012

ATENTO DISCÍPULO

Foto retirada da Net
 
 
 
 
 
 
 
ATENTO DISCÍPULO
 
Carlos Pereira
 
 
 
Os pés do menino, descalços, seguiam
 
O sulco húmido do arado, puxado
 
Pela dócil parelha de vacas amarelas,
 
Que o Ti Xico, sabiamente conduzia
 
Com a mão esquerda, tisnada
 
Pelo sol de muitos anos. Na direita,
 
Uma pequena vergasta de vime,
 
À qual só dava serventia na mudança de rego,
 
Batendo mais na canga do que nos nobres animais;
 
Ajuda prestimosa na manobra rotineira
 
A cada novo sulco esventrado à terra.
 
Era visível de forma indelével,
 
A conivente irmandade entre homem e animais.
 
As lavandiscas esvoaçavam num afã meticuloso
 
Na esperança de uma refeição de vermes subtérreos,
 
Que o arado, generosamente, punha a nu.
 
Todos trabalhavam para granjear o árduo
 
Sustento. O menino era, na maior e mais sábia
 
Sala de aula, um atento discípulo.
 
 
 
 
Aveiro, 05.06.2012
 
 
 


sexta-feira, 7 de setembro de 2012

HAICAIS

 
 
Foto de Carlos Pereira
 
 
 
 
 
 
 
HAICAIS
Carlos Pereira
 
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Onda profunda.
Longínquo som. Profícuo
saber que inunda.
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Mar azul agitado,
convulsão na praia. Emoção.
Teu amor lembrado.
………………………………………
Onda gigante.
Pôr-do-Sol. Magia. Arrebol
no teu semblante.
……………………………………….
 
Aveiro, 25.08.2012
 
 
 

 
 
 


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

CAPITÃO DE UM EXÉRCITO INERME

 
 
Foto retirada da Net
 
 
 
 
 

CAPITÃO DE UM EXÉRCITO INERME

Carlos Pereira
 
                 
                 
                                Ao Tonito, meu amigo de sempre
 


Jaz na manhã fria o ranger da infância!

No soalho puído da minha memória,

Ergo o olhar e percorro a distância

Até ao passado numa fusão sem escória.
 


Ainda se pressente no ar a doce fragrância

De um petiz; serenidade por demais notória

Na claridade dos olhos. No coração, a ânsia

De quem feliz, quer recordar a sua história.
 


Pés descalços, calções de ganga, capitão

De um exército inerme e sem uniforme.

Amizade era o que disparava o seu coração
 


Se o tambor da discórdia, rufava desconforme,

Na peleja mais acesa, pueril discussão;

Tomava-nos de assalto, emoção enorme.
 
 


Aveiro, 24.05.2012

 

 

 

 



sexta-feira, 24 de agosto de 2012

COMO EU VEJO O MAR

 
 
Lagos
Foto de Carlos Pereira
 
 
 
 
 
 
 
COMO EU VEJO O MAR
 
Carlos Pereira
 
 
Estou aqui sentado há um ror de tempo,
 
Se medido pela clepsidra abandonada nas areias desta praia
 
Pelos marinheiros que a aportaram há milhões de anos.
 
Milhões de anos nunca será muito tempo para contemplar o mar;
 
Ademais, eu gasto muito mais tempo a olhá-lo dentro do seu interior,
 
Do que a olhar a espuma na superfície dos seus dias.
 
Escuto os seus segredos seculares e perscruto o silêncio fulvo das algas,
 
Aliadas dos peixes que nunca farão as pazes com o criador do seu destino.
 
Nós e os peixes, somos filhos da mesma criação,
 
Porque o sal das nossas lágrimas
 
É igual ao sal das lágrimas do mar.
 
 
 
 
Aveiro, 07.05.2012
 
 
 
 
 

 
 
 




 
 


 






 

 
 
 



quarta-feira, 22 de agosto de 2012

HAICAIS

 
 
Praia da falésia - Vila Moura
Foto de Salete Pereira
 
 
 
 
 
 
 
 
HAICAIS
Carlos Pereira
 
………………………………….
Corpos seminus,
bronzeados. Ornados
de vida e luz.
…………………………………
Falsa partida!
Em vão o esforço d’então,
carta perdida.
…………………………………
Vila Moura és,
sedutora. Vou embora
mas fico a teus pés.
…………………………………
 
Vila Moura, 09.08.2012