CANAL DE SÃO ROQUE

CANAL DE SÃO ROQUE

Foto de Gabriel Pereira




domingo, 22 de junho de 2014

SOERGUE-TE Ó MÃO AGRILHOADA



Foto retirada da Net



SOERGUE-TE Ó MÂO AGRILHOADA
Carlos Pereira
 
 
Resvalam na apatia as palavras dos sábios e,
ecoam tonitruantes as dos deuses inúteis;
umas e outras são o espectro da
inutilidade brejeira dos caudilhos,
que adoçam ou acidulam os nossos sonhos.
 
Soergue-te, ó mão agrilhoada!
Liberta-te da peçonha antiga e,
começa a desenhar o teu próprio caminho.
 

 

Aveiro, 27.03.2013

 




domingo, 15 de junho de 2014

ENCONTRO COM ALBERTO CAEIRO



Foto de Carlos Pereira




ENCONTRO COM ALBERTO CAEIRO
Carlos Pereira
 
 
Havia um silêncio suspenso, tão profundo,
que se ouvia com uma nitidez transparente
o ranger das paredes, soltando as suas dores
em forma de música gregoriana.
A luz do sol, através de um estore a necessitar de conserto,
incidia sobre a mesa iluminando a folha
em que escrevera o título: «A solidão às vezes»;
para um possível poema.
Eu era o único cliente naquele café de paredes austeras
de granito de muitos séculos com histórias e segredos,
que tentava decifrar através de imagens que perpassavam
diante dos meus olhos como num filme dos anos trinta.
Absorto no meu estado de letargia, os meus sentidos,
auditivo e visão, não me deram conta da chegada de uma figura
de aspecto seráfico, misterioso, de olhar contemplativo.
Posso sentar-me, perguntou, ao mesmo tempo que os seus olhos
se fixavam na folha de papel iluminada pelo sol cálido da tarde.
Peço mil desculpas pela interrupção, disse com convicção
e humildade, apresentando-se como alguém que escrevia versos.
Não tem de quê, retorqui em tom tranquilizador: o meu inócuo poema
pode ser adiado por uma conversa reflexiva e libertadora.
 
 

Aveiro, 28.02.2014

Publicado no Diário de Aveiro

 

 


quarta-feira, 4 de junho de 2014

O POEMA



Foto de Carlos Pereira




O POEMA
Carlos Pereira
 
O poema não será nada mais
para além do que a palavra permitir
no fugaz momento de uma sílaba,
acocorada na pele de um tambor.
 
Será a estrada que nos conduz
através do sinuoso declínio do homem
enquanto ser superior numa hierarquia,
mesquinha e manipuladora.            
 
Será o toque a rebate para nos unirmos
no adro da consciência imaculada
para derrubarmos os exércitos eufemísticos,
que teimosamente nos garroteiam.
 

 

Aveiro, 03.03.2014

 


sexta-feira, 16 de maio de 2014

NUNCA SABEREI TUDO



Foto de Carlos Pereira






NUNCA SABEREI TUDO

Carlos Pereira

 

 

 

Nunca saberei tudo! Ninguém sabe tudo!

Saber mais deve ser o objectivo de cada um,

para poder afirmar: nunca saberei tudo.

 

Quem quer saber mais, aprende.

Quem aprende, sabe mais.

Sabe mais.

Sabe tanto.

Sabe tanto ou mais.

Sabe muito.

Sabe muito mais.

Sabe mais ou menos, para dizer que nunca saberá tudo.

 

Se perguntarem a quem sabe muito, por que é azul a água do mar, responderá:

- Esta questão tem a ver com a Física; o que determina a cor

é a quantidade de luz solar que incide sobre a água e a sua profundidade,

as partículas suspensas nela e o comprimento de onda da luz que é reflectida.

 

Se me perguntarem, a mim que sei muito pouco, respondo:

- O mar é o céu com água e com peixes em vez de estrelas.

Mas isso sou eu que sou poeta.

 

Quem me dera não saber nada, eu que sei tão pouco.

Assim não discordava do que dizem os que sabem tanto ou, tanto ou mais, muito ou

muito mais, e, esses não se davam ao trabalho de discordar das minhas opiniões,

porque eu nem sequer dominava os argumentos para as emitir, malgrado meu.

 

Por que somos tão próximos das pedras, das árvores, dos rios e dos montes,

dos mares e do sol que nem sequer pensam ou sabem que existem?

 

É na ambiguidade de uma possível resposta a esta simples semântica
que assenta a evidência do meu princípio opinativo:

Nunca saberei tudo! Ninguém sabe tudo!






Aveiro, 08.05.2014

Publicado no Diário de Aveiro

 


terça-feira, 13 de maio de 2014

NÂO DEMORES O MEU ABRAÇO



Foto de Carlos Pereira




NÃO DEMORES O MEU ABRAÇO
Carlos Pereira
 
 
Deambulo entre a multidão na cidade desperta
Mas sinto-me tão só com a tua ausência.
Um nó de saudade o meu coração, aperta,
E aviva a sensata lembrança da tua existência.
 
Os meus sentidos estão em estado de alerta
Num anseio ardente da tua comparência
Para que a minha alma de tristeza, coberta,
Rejubile e apague a dolorosa impaciência.
 
Não demores o meu abraço nem a palavra amor,
Que te darei num beijo tão puro e soletrado.
Vem, não adies esta melancolia, quase dor.
 
Não voltes ao meu sonho tantas vezes sonhado
Sem te ver mais um dia. Ao céu um louvor
Enviarei se te vir no meu sonho, acordado.
 
 
Aveiro, 21.06.2013 

Publicado no Diário de Aveiro

 

 

 

 

 

 

 

 

 


sexta-feira, 9 de maio de 2014

APENAS



Foto de Carlos Pereira





APENAS
Carlos Pereira
 
Sou,
entre os teus olhos e o relâmpago;
Água e fogo.
Desejo secreto de ti.
 
És,
entre a madrugada furtiva e o estremecimento;
Asas e vertigem.
Desejo incendiado de mim.
 

Aveiro, 04.04.2014

 


quarta-feira, 30 de abril de 2014

REBANHO ALINHADO



Imagem retirada da Net




REBANHO ALINHADO
Carlos Pereira

Carneiros! São tantos em “manada”,
Dispersos ou em fila indiana.
Não lutam, absolutamente, por nada;
É da sua (nossa) condição humana.

Dizem ámen a tudo. Tudo está bem.
Nunca se libertaram de Santa Comba Dão
E aceitam São Bento mais Belém.
Ao domingo mendigam a bênção.

O medo cresce nas pastagens e nos redis.
Os pastores, cães já não têm. Os lobos vis,
Roubam cada vez mais e mais a sua (nossa) lã.

Rebanho alinhado e manso à portuguesa.
Por que morreu no monte Catarina, a camponesa,
Se não há sol e pão para todos em cada manhã.

Aveiro, 06.02.2014
Publicado no Diário de Aveiro