CANAL DE SÃO ROQUE

CANAL DE SÃO ROQUE

Foto de Gabriel Pereira




sexta-feira, 20 de março de 2015

SUBITAMENTE, OU TALVEZ NÃO



Óleo s/ tela de Salete Pereira




SUBITAMENTE, OU TALVEZ NÃO
Carlos Pereira
 
 
Subitamente, ou talvez não, surgiste bela e pura
transbordando intensa luz como se fora o sol
a derramar-se pelas paredes do meu quarto,
dissipando as sombras que me angustiam e
tolhem o discernimento.
Quando digo luz, digo amor ou poema, ou a fusão de ambos,
bacteriologicamente puros na sua essência e
no propósito da sua razão existencial.
Agora, que és cúmplice do meu estado de euforia,
desenho o teu rosto e recorto-o na tela do meu sonho;
assim, a angústia deixará de dormir a meu lado
sempre que te ausentares de mim.
 
 
 

Aveiro, 04.02.2014

 

 

 


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

TODAS AS COISAS





Foto de Carlos Pereira


TODAS AS COISAS
Carlos Pereira
 
 
Tudo aquilo que nos propomos cumprir,
Está na ordem lógica da execução das coisas.
Porém, o tempo pode ser considerado
Inimigo ou aliado, conquanto a sua consecução
Tenha êxito ou não.
Nesse trajecto as palavras são marcas fascinantes
Na peregrinação do pensamento
Para desvendar o mistério de todas as coisas,
Ou de tudo,
Ou de nada,
Ou do princípio em que as palavras,
Eram apenas palavras a sossegarem
O regresso do nosso desespero,
Porque todas as coisas continuam imóveis
Na nossa memória.
 

 

Aveiro, 13.02.2013

 

 




sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

SOU TUDO SOU NADA




Imagem retirada da Net




SOU TUDO SOU NADA
Carlos Pereira
 
Sou tudo, sou nada na rigidez do êxito
Alvo secreto de infinito desejo
Sou o princípio de um texto
Ausência timorata de um beijo
 
Resquício de sóbria loucura
Nos escombros da lucidez impura
 
 

Aveiro, 16.05.2013

 


domingo, 28 de dezembro de 2014

IMENSO



Foto de Carlos Pereira




IMENSO
Carlos Pereira
 
o céu é imenso. o mar é imenso.
ambos são azuis e imensos. até para lá do infinito.
o pensamento é imenso. o amor é imenso.
ambos são inexpugnáveis e imensos. até para além da morte.
 

Aveiro, 22.12.2014

 


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

SOU EU OU OUTRO POR MIM



Foto de Carlos Pereira



SOU EU OU OUTRO POR MIM
Carlos Pereira


Sou eu ou outro por mim
Que sonha como eu, sendo eu assim
Tão real por dentro e por fora;
Um e outro somos a criança de outrora.


Sou eu infinito jardim,
Pétala que se desprende de mim.
Bem quista luz da aurora;
Uma e outra são a infância que demora.



Aveiro, 01.03.2013


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

É-ME DFÍCIL ACEITAR OS ESTÍMULOS VISCOSOS



Imagem retirada da Net




É-ME DIFÍCIL ACEITAR OS ESTÍMULOS VISCOSOS

Carlos Pereira


É-me difícil aceitar os estímulos viscosos

vindos de quem se julga superior aos demais.


Admito que me faltam os tiques dos meninos

que estudaram num qualquer colégio francês ou alemão.

Que sou rude com as palavras e com os gestos.

Confesso que nunca pude dizer:

- O meu pai mandou o chauffeur buscar-me à escola no mercedes

ou quando chegar a casa a Maria vai preparar um lanche com leite e chocolate,

torradas com manteiga, queijo e compota de morango.

Mas pude dizer:

- Joguei à bola, feita de uma meia velha já bastante remendada

e com trapos também velhos e gastos. Apanhei girinos nas poças de água

nascidas das primeiras chuvas de Outono.

Sabia o nome dos pássaros pelo seu canto e tinha amigos leais.

Confesso que nunca pude dizer:

- O meu pai levou-me a visitar o jardim zoológico.

Mas pude dizer:

- O meu pai levou-me à pesca, ensinou-me a utilizar a cana,

os diversos tipos de anzol e a panóplia de iscos.


É-me difícil aceitar os estímulos viscosos

vindos de quem se julga superior aos demais.


Avança. Marcha. Bate com vigor a bota na parada.

Bate a continência. Salva a nação e a aparência.

Olha a boina, recruta, está mal colocada.

Ó nosso pronto quem o ensinou a marchar.

Que falta de elegância, que inoperância.

Ó nosso cabo leve o jipe ao comando que o nosso general

quer ir ao ninho matar saudades da sua jovem namorada.

Acabaram as munições. Acabou a guerra.

Quem a ganhou?

- Fomos nós, que tínhamos poemas de combate em vez de aviões e de um

submarino decrépito e ferrugento, que nunca tirou a cabeça debaixo de água;

se fosse areia seria uma avestruz.

Truz! Truz!

Quem é?

- Somos nós que fomos ao lado de fora, para aquilatar a veracidade do que dizem.

Mas é mentira o que estão a dizer, o que disseram e o que irão dizer no futuro.


É-me difícil aceitar os estímulos viscosos

vindos de quem se julga superior aos demais.


 O tempo e os rios passam lentos e é tão difícil sofrer neste país;

 talvez por isso o nosso extermínio não seja exequível.


 Aveiro, 21.02.2014

 Publicado no Diário de Aveiro

 Dito no programa de fados e poesia, “Solar da Bairrada”, pelo fadista e poeta José Guerreiro na Rádio Província de Anadia

in "Poetas d'hoje / Antologia  Edição Grupo de Poesia da Beira Ria / Aveiro 2016


quinta-feira, 9 de outubro de 2014

SER, TER E SABER



Foto de Carlos Pereira




SER, TER E SABER
Carlos Pereira


Ainda que pareça ser
o que não sou; sou o que pareço....

Entre ser e parecer,
sou aquele que me conheço.

 
Ainda que pareça ter
o que não tenho; tenho o que mereço.
Entre ter e merecer,
sou aquele que agradeço.

 
Ainda que pareça saber
o que não sei; sei o que teço.
Entre saber e compreender,
sou aquele que amanheço.



Aveiro, 17.03.2014