CANAL DE SÃO ROQUE

CANAL DE SÃO ROQUE

Foto de Gabriel Pereira




domingo, 1 de novembro de 2015

EGRÉGIO ORGULHO PÁTRIO





Foto de Carlos Pereira




EGRÉGIO ORGULHO PÁTRIO                             
Carlos Pereira               

 
No gesto impalpável há fracturas de nós
nas epopeias redesenhadas no infinito.
Há um canto de aves que a uma só voz
invade o espaço primitivo do nosso grito.


 
No declínio da vontade não acredito
nem no renegar do chão dos nossos avós.
Haverá sempre um conveniente conflito
na construção da ponte onde seguimos sós.


 
Havemos de reacender a fogueira extinta.
Devolver as águas calmas ao renovado rio
e regressar todas as naus do cais do marasmo.


 
O egrégio orgulho pátrio, fervoroso, se sinta
em cada um de nós num ciclópico delírio.

No sangue, corra único, em dócil espasmo.


Aveiro, 29 de Junho de 2015
Publicado no Diário de Aveiro

in "Poetas d'hoje" Antologia III - Edição Grupo de Poesia da Beira Ria / Aveiro 2016



quinta-feira, 8 de outubro de 2015

LEVANTADO DO CHÃO













 Foto de Carlos Pereira







LEVANTADO DO CHÃO
Carlos Pereira
 
                        
                         Para José Saramago
 
 
 
Entre a madrugada nascida de prantos
e o revoltear, indomável, do vento norte,
há uma seara coberta de negros mantos;
prenúncio, insofismável, de fome e morte.
 
A cada golpe da foice, cerce, no loiro pão,
um tronco se levanta na revolta calada.
Da luta, infatigável, um levantado do chão
recusa as chagas da carne maltratada.
 
O tropel dos cascos já eriça a leve poalha;
nos olhos dos carrascos há chispas de ódio,
prontas a disparar a bala assassina, canalha;
o triunfo do trabalho, será certo, todavia serôdio.


Aveiro, 11 de Setembro de 2015  
Publicado no Diário de Aveiro

 

 


















 

 

 


sexta-feira, 25 de setembro de 2015

ICONOLOGIA POÉTICA






Foto de Carlos Pereira





ICONOLOGIA POÉTICA
Carlos Pereira
 
 
Não teço
fio nem barcos naufragados;
invento sonhos nunca sonhados.

 
Não meço
lonjuras nem mares agitados;
desenho horizontes nunca visitados.

 
Não esqueço
as palavras nem os poetas amados;
gravo na areia poemas imortalizados.

 
Não mereço
este imóvel cais de destinos cruzados;
vivo morrendo por teus beijos dados.

 
Não permaneço
no altar intangível dos afamados;
glorifico-me no reino dos ocultados.

 
Amanheço
em ti depois de longos sonos sobressaltados;
sou refém dos teus beijos salgados.

 
Desvaneço
de tanta crueza nos ódios exacerbados;
sou sêde de dias de paz adiados.

 
Não cesso
esta fantasia de poeta sem segredos;
condeno meus versos a duros degredos.

 
 
 
Aveiro, 20 de Junho de 2015




sábado, 22 de agosto de 2015

MERCADOS



Imagem retirada da Net




MERCADOS
Carlos Pereira
 
Sob as asas deste mundo
extemporâneo, louco,
tão grande na sua dimensão exterior
e tão pequenino, azedo,
nos interstícios do seu interior,
um ciclópico grito rouco
há-de levantar-se furibundo
contra a venal liberdade, sem medo.
 

Aveiro, 4 de Julho de 2015

 

 

segunda-feira, 13 de julho de 2015

REENCONTRO COM ALBERTO CAEIRO



Imagem retirada da net



REENCONTRO COM ALBERTO CAEIRO
Carlos Pereira
 
 
Por vezes, damos voltas e voltas e mais voltas
para no fim voltarmos ao ponto de partida.
Por que acontece este desígnio iniludível?
Não sabemos. Ou melhor sabemos; não sabemos é dizê-lo
por palavras que todos entendamos.

Se ao menos nesse tempo todo em que fomos completamente inúteis,
olhássemos com naturalidade para as coisas,
mesmo as mais insignificantes como uma flor ou uma pedra;
não para saber o nome da planta ou o seu período de floração e
saber se a pedra é xisto, um pedaço de calcário ou granito,
mas antes, apreciar o belo colorido da flor tratada com esmero
e as arestas bem delineadas da pedra, por mãos hábeis de incógnitos,
jardineiro e canteiro, que emprestam todo o seu saber sensível
para dar beleza ao jardim da nossa vida e tornarem mais agradável
a apreciação sensorial daquilo que nos rodeia.
 
Quando gostamos de algo dizemos que é bonito;
quando não gostamos dizemos que é feio;
quando não é bonito nem feio, dizemos que é diferente.
Mas se é diferente, qual o padrão de referência que usámos;
o bonito ou o feio?
Tenho para mim que quando dizemos que é diferente,
é porque também nessa circunstância não sabemos dizer
por palavras entendíveis a razão intrínseca dessa diferenciação.
 
Nem aos poetas, a quem todos os devaneios da palavra são consentidos,
é permitido afirmar que a natureza é circunstancialmente diferente.

A natureza pode ser mutável e é-o certamente;
poder ser bonita ou feia, mas nunca diferente;
se fosse diferente deixava de ser natureza e
passava a ser um homem, um ser marinho, uma estrela ou um deus.
 
Nunca me senti tão próximo de mim e de ti, poeta,
como neste labirinto de ideias e palavras.
 

 

Aveiro, 11 de Março de 2015

Publicado no Diário de Aveiro




quarta-feira, 1 de julho de 2015

SONETO PARA JOSÉ SARAMAGO







Foto retirada da net



SONETO PARA JOSÉ SARAMAGO
Carlos Pereira
 


Tua escrita, genuína, tem percurso verosímil;
Água límpida de todos os rios do nosso alento.
São flores de todos os jardins de Abril;
São aves a voar e a renascer a cada momento.
 
Nasceste, pobre, em Azinhaga no ano de mil,
922. Enobreceste a Língua com o teu grado talento
E premiaram-te com o Nobel sem seres servil;
Tua obra será sempre um farol de luz, isento.
 
Teu estro tornou teus livros magnânimos,
Sobrelevando a estirpe da nossa Pátria-Mãe;
O mesmo estro que levou as naus mais além.
 
Teu engenho e juízo foram os maiores ânimos
Que elevaram tua obra ao Olimpo dos imortais;
Feito e memória, imperecíveis, para além dos anais.


Aveiro, 29 de Janeiro de 2015

Publicado no Diário de Aveiro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


sábado, 27 de junho de 2015

O POVO SAÍU À RUA

Adejam, no ar denso, silvos crocitantes.
Avançam, serenos, homens e mulheres
de cravos e palavras em riste.
Há prantos esquecidos em rostos triunfantes.
No esboroar do passado, atro e triste,
cresce um futuro fecundo em saberes
de um povo que teimosamente resiste.

Aveiro, 22 de Junho de 2015