CANAL DE SÃO ROQUE

CANAL DE SÃO ROQUE

Foto de Gabriel Pereira




segunda-feira, 21 de março de 2016

CONSTRUÇÃO



Foto de Carlos Pereira






CONSTRUÇÃO
Carlos Pereira
 
Com as mãos principiei a estrada.
Com os olhos criei um rio e um monte
e construí uma casa destelhada,
que deixa ver o céu até ao horizonte.
 
Quando for, por força das horas, chegada
a nívea aurora e um raio de sol desponte
por entre as fímbrias da pura madrugada,
serei mendigo sedento na boca da tua fonte.
 
No rasto luminoso da nossa noite velada,
os fragmentos de luz da tua alma sagrada,
serão sólidos alicerces para a nossa ponte.
 
Se ainda restar da construção sonhada
algum tempo, sacoleja a alegria da alma lavada
para que o jardim do nosso amor se apronte.
 
 
Aveiro, 7 de Novembro de 2015
Publicado no Diário de Aveiro
 
 





sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

OLHAR LÍQUIDO DE MENINO



Foto retirada da Net


OLHAR LÍQUIDO DE MENINO
 
 
                                      Para Eugénio de Andrade
 
 
O teu olhar líquido,
atravessa os campos e a cidade
com a mesma doçura,
com o mesmo vagar
e escreve poemas no rosto das pedras.
 
O teu olhar de menino
em olhos de intacta castidade,
atravessa a lonjura
que nos irmana ao mar
e cria a raiz de um rio a florir nas trevas.
 
 

Aveiro, 12 de Janeiro de 2016

 





domingo, 3 de janeiro de 2016

SINTO-ME SERENO (Poema para minha Mãe)




Foto de Carlos Pereira





SINTO-ME SERENO (Poema para minha Mãe)
Carlos Pereira
 
                          
Sinto-me sereno, ante o olhar penetrante do centauro
que me visitava nos meus sonhos
nas longas horas de inverno.
 
Abri todas as portas da minha infância e,
eu ainda estou lá, no teu colo, a preparar a eternidade
num lago cheio de nenúfares e palavras.
Que farei com as palavras?
Saberei dar-lhes vida e negar-lhes a morte
numa cama eterna de um rio,
desde a inquietante nascente até à presunçosa foz?
 
Quem as lerá, sabendo-as minhas?
Sabendo que mas deste
com a simplicidade de quem dá uma flor ou um livro.
Quem as guardará?
Sabendo que as uso para te tornar viva nas minhas lembranças.
 
Sinto-me sereno, ante as minhas palavras;
escrevendo-as todas, irei encontrar-te em outro lugar.
As palavras continuarão a ser só palavras, não mais do que isso;
eu, serei apenas eu, a lembrar-te.
 
A promessa das palavras vindouras,
alvoroçará o perverso movimento perpétuo do tempo;
e se no entremês desse desígnio, sobrarem só silêncios e
grotescas sombras, terei que reatar a vigília do poema
para que as suas palavras sejam, dentro de mim,
a água que das fontes secou, e, nelas, saciarei a sede
da minha doce loucura.
 
Sinto-me sereno, porque em cada poema que faço
com as minhas palavras em vez de inúteis lágrimas,
perpetuarei a tua memória para além da inevitabilidade
dos destroços que a tua saudade gerou.
 
 
 
 
Aveiro, 9 de Abril de 2015
Publicado no Diário de Aveiro
 






























quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

COEXISTÊNCIA HARMONIOSA



Foto de Carlos Pereira




COEXISTÊNCIA HARMONIOSA
Carlos Pereira

 
Apraz-me todos os ócios que a Natureza me faculta,
tão grave é o desejo de comunhão entre o céu e a terra.
Tamanha é a crença que a minha alma exulta,
na absolvição dos desmandos entre o mar e a serra.

Se todo o mistério em si próprio se oculta,
na milenar rocha o código original se encerra.
A saga desmedida do homem hodierno sepulta,
a energia gasta, não na paz, mas na horrenda guerra.

Neste mundo desbotado hão-de nascer ideias novas
e serão cantadas, sem esmorecimento, joviais trovas,
na construção inadiável de humanizados trilhos.

Degrau a degrau, na aprendizagem de caminhar,
em passo estugado, resoluto, sem definhar,
mereçamos ser, criaturas do universo, dignos filhos.



Aveiro, 21 de Outubro de 2015
Publicado no Diário de Aveiro

 

 








 



domingo, 1 de novembro de 2015

EGRÉGIO ORGULHO PÁTRIO





Foto de Carlos Pereira




EGRÉGIO ORGULHO PÁTRIO                             
Carlos Pereira               

 
No gesto impalpável há fracturas de nós
nas epopeias redesenhadas no infinito.
Há um canto de aves que a uma só voz
invade o espaço primitivo do nosso grito.


 
No declínio da vontade não acredito
nem no renegar do chão dos nossos avós.
Haverá sempre um conveniente conflito
na construção da ponte onde seguimos sós.


 
Havemos de reacender a fogueira extinta.
Devolver as águas calmas ao renovado rio
e regressar todas as naus do cais do marasmo.


 
O egrégio orgulho pátrio, fervoroso, se sinta
em cada um de nós num ciclópico delírio.

No sangue, corra único, em dócil espasmo.


Aveiro, 29 de Junho de 2015
Publicado no Diário de Aveiro

in "Poetas d'hoje" Antologia III - Edição Grupo de Poesia da Beira Ria / Aveiro 2016



quinta-feira, 8 de outubro de 2015

LEVANTADO DO CHÃO













 Foto de Carlos Pereira







LEVANTADO DO CHÃO
Carlos Pereira
 
                        
                         Para José Saramago
 
 
 
Entre a madrugada nascida de prantos
e o revoltear, indomável, do vento norte,
há uma seara coberta de negros mantos;
prenúncio, insofismável, de fome e morte.
 
A cada golpe da foice, cerce, no loiro pão,
um tronco se levanta na revolta calada.
Da luta, infatigável, um levantado do chão
recusa as chagas da carne maltratada.
 
O tropel dos cascos já eriça a leve poalha;
nos olhos dos carrascos há chispas de ódio,
prontas a disparar a bala assassina, canalha;
o triunfo do trabalho, será certo, todavia serôdio.


Aveiro, 11 de Setembro de 2015  
Publicado no Diário de Aveiro

 

 


















 

 

 


sexta-feira, 25 de setembro de 2015

ICONOLOGIA POÉTICA






Foto de Carlos Pereira





ICONOLOGIA POÉTICA
Carlos Pereira
 
 
Não teço
fio nem barcos naufragados;
invento sonhos nunca sonhados.

 
Não meço
lonjuras nem mares agitados;
desenho horizontes nunca visitados.

 
Não esqueço
as palavras nem os poetas amados;
gravo na areia poemas imortalizados.

 
Não mereço
este imóvel cais de destinos cruzados;
vivo morrendo por teus beijos dados.

 
Não permaneço
no altar intangível dos afamados;
glorifico-me no reino dos ocultados.

 
Amanheço
em ti depois de longos sonos sobressaltados;
sou refém dos teus beijos salgados.

 
Desvaneço
de tanta crueza nos ódios exacerbados;
sou sêde de dias de paz adiados.

 
Não cesso
esta fantasia de poeta sem segredos;
condeno meus versos a duros degredos.

 
 
 
Aveiro, 20 de Junho de 2015