CANAL DE SÃO ROQUE

CANAL DE SÃO ROQUE

Foto de Gabriel Pereira




quarta-feira, 1 de junho de 2016

MENINO DA RUA


Imagem retirada da net






Porque hoje é dia da criança



MENINO DA RUA (reposição)
Carlos Pereira




Sou apenas um, dentre muitos,
que não está no meio da estrada que te leva.


Faço parte da parte que sabe que em muitos dias
pouco ou nada comes durante o dia.


Rebolo na relva e exalo o cheiro húmido da terra
nos finais do outono.


Faço parte da parte que sabe que vais sentir frio
nos ossos no inverno da cama.


Ouço a música das estrelas nas noites de luar
e sei de cor as canções que me ensina o mar.


Faço parte da parte que sabe que tu já perdeste
a esperança de sonhar.


Dá-me a tua mão.
Vou levar-te onde há gente que chora por ti.
Que traz uma cebola na algibeira para não usar
as suas verdadeiras lágrimas ( usam as do crocodilo)
porque podem fazer falta
para desgraças mais importantes que a tua.


A ti, menino da rua, já te secaram as lágrimas
e finges ser feliz na tua humildade.


Faço parte da parte que sabe que te roubam a mocidade,
mas também sei que jamais te usurparão a dignidade.



Aveiro, 06.04.2013

Publicado no Diário de Aveiro
in “Poetas d´hoje” / colectânea – Um grito contra a pobreza – Edição Grupo Poesia da Beira Ria - Aveiro








terça-feira, 24 de maio de 2016

DA LUZ E DO AMOR



Foto de Carlos Pereira



DA LUZ E DO AMOR
Carlos Pereira


Da luz suave dos teus olhos
desenha-se outro sol.
Um perpétuo sonho
que em mim se agrega.

Da luz diáfana do mar
outro barco regressa.
Uma lágrima de sal
por ti solidária navega.

Do calor intenso do sol
novos lumes se acendem.
Uma fogueira de amor etéreo
que tu atiças a cada entrega.

Do brilho ebriático do céu
soam harpas de querubins.
Um gládio de oiro se afoite
no calor dos corpos em refrega.

Do quente acolhedor da terra
o dormente vulcão se agita.
Um estertor orgástico complacente
é quanto o nosso êxtase adrega.


Aveiro, 6 de Outubro de 2015
Publicado no Diário de Aveiro



























sexta-feira, 29 de abril de 2016

INTERLÚDIO



Foto de Carlos Pereira





INTERLÚDIO
Carlos Pereira
 
 
Subi ao mais alto cume
para não estar só.
Quando do sol, o lume
se for, seremos apenas pó.
 
Naveguei na mais forte vaga
para não ter medo.
Quando da lua, o brilho se apaga
o amor já não é segredo.
 
Parti na mais nívea nuvem
para não deixar de sonhar.
Quando do céu, a chuva vem
a terra sente o ventre a fecundar.
 
Dormi no mais belo lençol de linho
para não sentir outra falta.
Quando do ovo, a vida exulta no ninho
a criação atinge a glória mais alta.
 
 

Aveiro, 14 de Outubro de 2015

Publicado no Diário de Aveiro

 
 
 
 



















segunda-feira, 21 de março de 2016

CONSTRUÇÃO



Foto de Carlos Pereira






CONSTRUÇÃO
Carlos Pereira
 
Com as mãos principiei a estrada.
Com os olhos criei um rio e um monte
e construí uma casa destelhada,
que deixa ver o céu até ao horizonte.
 
Quando for, por força das horas, chegada
a nívea aurora e um raio de sol desponte
por entre as fímbrias da pura madrugada,
serei mendigo sedento na boca da tua fonte.
 
No rasto luminoso da nossa noite velada,
os fragmentos de luz da tua alma sagrada,
serão sólidos alicerces para a nossa ponte.
 
Se ainda restar da construção sonhada
algum tempo, sacoleja a alegria da alma lavada
para que o jardim do nosso amor se apronte.
 
 
Aveiro, 7 de Novembro de 2015
Publicado no Diário de Aveiro
 
 





sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

OLHAR LÍQUIDO DE MENINO



Foto retirada da Net


OLHAR LÍQUIDO DE MENINO
 
 
                                      Para Eugénio de Andrade
 
 
O teu olhar líquido,
atravessa os campos e a cidade
com a mesma doçura,
com o mesmo vagar
e escreve poemas no rosto das pedras.
 
O teu olhar de menino
em olhos de intacta castidade,
atravessa a lonjura
que nos irmana ao mar
e cria a raiz de um rio a florir nas trevas.
 
 

Aveiro, 12 de Janeiro de 2016

 





domingo, 3 de janeiro de 2016

SINTO-ME SERENO (Poema para minha Mãe)




Foto de Carlos Pereira





SINTO-ME SERENO (Poema para minha Mãe)
Carlos Pereira
 
                          
Sinto-me sereno, ante o olhar penetrante do centauro
que me visitava nos meus sonhos
nas longas horas de inverno.
 
Abri todas as portas da minha infância e,
eu ainda estou lá, no teu colo, a preparar a eternidade
num lago cheio de nenúfares e palavras.
Que farei com as palavras?
Saberei dar-lhes vida e negar-lhes a morte
numa cama eterna de um rio,
desde a inquietante nascente até à presunçosa foz?
 
Quem as lerá, sabendo-as minhas?
Sabendo que mas deste
com a simplicidade de quem dá uma flor ou um livro.
Quem as guardará?
Sabendo que as uso para te tornar viva nas minhas lembranças.
 
Sinto-me sereno, ante as minhas palavras;
escrevendo-as todas, irei encontrar-te em outro lugar.
As palavras continuarão a ser só palavras, não mais do que isso;
eu, serei apenas eu, a lembrar-te.
 
A promessa das palavras vindouras,
alvoroçará o perverso movimento perpétuo do tempo;
e se no entremês desse desígnio, sobrarem só silêncios e
grotescas sombras, terei que reatar a vigília do poema
para que as suas palavras sejam, dentro de mim,
a água que das fontes secou, e, nelas, saciarei a sede
da minha doce loucura.
 
Sinto-me sereno, porque em cada poema que faço
com as minhas palavras em vez de inúteis lágrimas,
perpetuarei a tua memória para além da inevitabilidade
dos destroços que a tua saudade gerou.
 
 
 
 
Aveiro, 9 de Abril de 2015
Publicado no Diário de Aveiro
 






























quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

COEXISTÊNCIA HARMONIOSA



Foto de Carlos Pereira




COEXISTÊNCIA HARMONIOSA
Carlos Pereira

 
Apraz-me todos os ócios que a Natureza me faculta,
tão grave é o desejo de comunhão entre o céu e a terra.
Tamanha é a crença que a minha alma exulta,
na absolvição dos desmandos entre o mar e a serra.

Se todo o mistério em si próprio se oculta,
na milenar rocha o código original se encerra.
A saga desmedida do homem hodierno sepulta,
a energia gasta, não na paz, mas na horrenda guerra.

Neste mundo desbotado hão-de nascer ideias novas
e serão cantadas, sem esmorecimento, joviais trovas,
na construção inadiável de humanizados trilhos.

Degrau a degrau, na aprendizagem de caminhar,
em passo estugado, resoluto, sem definhar,
mereçamos ser, criaturas do universo, dignos filhos.



Aveiro, 21 de Outubro de 2015
Publicado no Diário de Aveiro