CANAL DE SÃO ROQUE

CANAL DE SÃO ROQUE

Foto de Gabriel Pereira




terça-feira, 20 de dezembro de 2016

JUSTO É O CÉU


Foto de La Salete Pereira





JUSTO É O CÉU
Carlos Pereira


A flor murchou tão delicadamente
e os meus olhos abertos ficaram
tristes e, dolorosamente,
duas lágrimas deles brotaram.

Justo é o céu e o ímpar saber da natureza.
Livre é o pensamento na sua grandeza.


Aveiro, 18 de Outubro de 2015
Publicado no Diário de Aveiro












sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A FORÇA DA RAZÃO



Foto de Carlos Pereira




A FORÇA DA RAZÃO
Carlos Pereira


Este mundo incrédulo, desavindo,
É como barco sem ancoradouro.
Todo o mister é bem-vindo
Como a pele quando vira couro.

Não há sol que tanto brilhe
Nem noite que tanto escureça.
Pelo longo caminho se trilhe
O que de melhor em nós se conheça.

Não sou príncipe nem reino, tenho!
Quando venço, repudio, a glória.
Carrego por vocação o pesado lenho
Contra toda a urdidura censória.

Que do bem ninguém se farte
E perante o mal não se amoleça.
Se pelo lado fraco a corda parte
É porque o mais forte não tropeça.

Se formos fieis a nós mesmos,
Urdiremos ufana bandeira.
Contra perversos feudalismos,
Seja a voz, gloriosa charneira.


Aveiro, 30 de Setembro de 2015
Publicado no Diário de Aveiro







sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O VOO DO INSECTO


Foto de Salete Pereira



O VOO DO INSECTO
Carlos Pereira


Há uma brandura na mão que afaga o rosto da tarde,
e o silêncio da noite estelar irá comover-se com esse gesto.

O voo do insecto projecta-se na seara
através do vento tórrido de um verão de pedra,
e o suor desse esforço dessedenta o sangue aceso
das veias do solo rugoso e gretado,
cemitério incandescente, onde descansam os ossos
do nosso comiserador descontentamento.

Aveiro, 31 de Agosto de 2016
Publicado no Diário de Aveiro



quarta-feira, 28 de setembro de 2016

MOMENTOS REFLEXIVOS



Foto de Salete Pereira






MOMENTOS REFLEXIVOS
Carlos Pereira


Na imperfeição do caminho há tortuosos contornos,
que são o troféu maior dos que vencem
com a veemência afirmativa da sabedoria.


Quando me detenho a olhar a natureza,
sou profundamente mais humano e imensamente feliz,
porque tudo me pertence nesse exacto momento.

Olhar, é ver muito para além de quem apenas vê
e se acomoda no entediante casulo de observador lôbrego.

Não temas percorrer o caminho sinuoso da montanha;
nela não tropeçarás.
Teme, sim, a tua marcha no caminho pedregoso,

ainda que de pequenos seixos e plano;
nele tombarás se teus passos não forem, inequivocamente,
invulneráveis e precisos.

A implacável solidão pode-nos gastar, pode-nos tombar;
corpos pendentes sobre um muro instável;
trajetória indomável do destino.
Sopro do vento a murmurar-nos memórias antanhas
e a prolongar a lentidão da noite na agonia das sombras.

A brancura da manhã adormece os meus versos
na sonolenta corrente do rio e, as palavras silenciosas,
ocupam o vazio entre a distância do alvor do teu sorriso
e o entardecer matizado pelo esplendor colorido de um amor indiviso.


Aveiro, 19 de Fevereiro de 2016
Publicado no Diário de Aveiro





quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A RARA APARIÇÃO DOS PÁSSAROS


Foto de Salete Pereira










A RARA APARIÇÃO DOS PÁSSAROS
Carlos Pereira




A rara aparição dos pássaros

bebendo a água das estrelas

e dos freáticos astros complacentes,

acicatam o núcleo contemplativo

do nosso olhar limpidamente endógeno.

Lamparinas de puro azeite, indicam o caminho

para as plúmbeas tempestades que enlaçam o cais

onde os barcos são dolentes abraços

de constelações suspensas.

Há uma condenação que nos mutila,

porque os pássaros deixaram de voar

sobre um mar auspicioso de monótona água.


Aveiro, 17 de Abril de 2016
Publicado no Diário de Aveiro





















sábado, 30 de julho de 2016

EXCENTRICIDADES



Foto de Carlos Pereira






EXCENTRICIDADES
Carlos Pereira


Quero encher os olhos de mar
e as mãos vazias com a solidão dos mortos.

Quero encher o coração com a luz do deserto
e a serenidade do céu.

Não quero que a imortalidade,
sequestre a força da onda no abraço do mar.

Não quero que a tempestade,
perturbe os pássaros no meu onírico voar.

Quero cruzar-me com a vespertina suavidade
da água que escorre pelas pedras a cantar.

Quero aprender a ser imortal e receber
flores silvestres no derradeiro momento
em que as palavras tenham sílabas sincopadas.

Quero uma torrente de bondade para irrigar as veias
dos caminhos extenuados de homens cativos.

Quero tocar o céu que é anseio antigo,
tão antigo como o próprio céu;
mas tocá-lo, não sei se consigo,
antes de o anseio ser apenas meu.


Aveiro, 13 de Dezembro de 2015
Publicado no Diário de Aveiro






segunda-feira, 20 de junho de 2016

MADRIGAL PARA UMA ROSA



Escultura em areia de José Monteiro em Albufeira
Foto de Carlos Pereira




Minha participação no evento do Grupo CAFÉ CUBANO

“Poema para una Rosa”

MADRIGAL PARA UMA ROSA
Carlos Pereira (Portugal)




Oh! Criatura de boca sedenta
de amor e de outras fontes.
Poema, Mulher glória, amamenta
os filhos e novos horizontes.

Chamam-te Rosa e não és flor.
Exalas o mais virgem perfume
com que estremeces no amor
e incendeias o corpo de espúrio lume.

Esboço de anjo com traço maculado.
Eira de pão que o diabo amassou.
Alegria e tristeza; mote para o teu fado
que a voz do tempo e da vida te cantou.

Asa protectora! Melancolia em festa!
Rota de ave sem rumo ou destino.
Liberta o último fôlego que ainda resta
na procura do altar de um deus menino.



Aveiro, 16 de Outubro de 2015
Publicado no Diário de Aveiro

In- POETAS D´HOJE  / Antologia IV – Edição Grupo de Poesia da Beira Ria – Aveiro 2017