CANAL DE SÃO ROQUE

CANAL DE SÃO ROQUE

Foto de Gabriel Pereira




quarta-feira, 17 de maio de 2017

UM DEUS MENINO



Imagem retirada da net



UM DEUS MENINO
Carlos Pereira

Todo o mundo me cabe na mão
tão grandes são as raízes dos dedos.
No coração cabe-me toda a terra enxuta
e um deus menino que me escuta
e conta todos os seus segredos,
para que seja meu irmão.


Aveiro, 8 de Outubro de 2015
Publicado no Diário de Aveiro


quarta-feira, 19 de abril de 2017

DOCE SENSAÇÃO



Foto de Carlos Pereira






DOCE SENSAÇÃO
Carlos Pereira

É de espanto o meu olhar
perante o nascer do dia
no areal dos teus passos.


Inebriado fico
no interior do mel quente
dos teus braços.



Aveiro, 21 de Junho de 2015
Publicado no Diário de Aveiro



domingo, 19 de março de 2017

DIA DO PAI



Foto de Carlos Pereira




o poema mais puro habita em mim. por isso
sei-o de cor. o meu pai levava-me às
cavalitas porque era de noite e eu não via
onde punha os pés. o meu pai atravessou
o esteiro a nado, comigo às costas, porque eu
ainda não sabia nadar e o regresso a casa
era mesmo ali depois da outra margem.


Aveiro, 24 de Fevereiro de 2015

sábado, 25 de fevereiro de 2017

FRAGMENTOS


Foto de La Salete Pereira




FRAGMENTOS
Carlos Pereira


Palavras síncronas, modestas e audazes,
atravessaram a pauta metálica
de um bosque de teclas e cordas,
em vibratos aéreos,
tangidos por virgem sedenta de acordes de sémen,
no ventre primaveril de uma aurora prenhe
por astros aburguesados de cio.

Fragmentos marmóreos de um seio lunar,
alimentam os luzeiros trémulos
que hão-de guiar o barco universal
na libertação dos mastros e
das marés desconchavadas
de malditos mares.

Raízes ancestrais,
descem às profundezas aquíferas do mar Egeu,
dele bebendo e alimentando-se de estilhas
de barco adormecido no seu leito primevo,
na procura da ânfora guardiã
da sabedoria suprema de Hipócrates e
da celestial beleza de Helena, a divina rainha.

Aveiro, 11 de Outubro de 2016

In ”GRAPHEIN” Coletivo de Autores – Edições Vieira da Silva 2017

Publicado no Diário de Aveiro


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

AZUIS



Foto de La Salete Pereira




Dedico este poema à minha querida amiga poeta mágica dos azuis







AZUIS
Carlos Pereira



E os azuis emergem do silêncio
adocicado da noite e,
amanhece mais cedo nos teus olhos
e o poema voa tranquilo nas asas de um pássaro,
também ele azul,
imortalizado nos teus sonhos cromáticos.


E o teu olhar é um rio azul que dessedenta
os cansaços áridos do teu coração
entre as férteis margens do sonho,
onde navegas até ao mar em que o azul,
é a seiva do ar que respiras.


Aveiro, 2 de Maio de 201
Publicado ni Diário de Aveiro








terça-feira, 20 de dezembro de 2016

JUSTO É O CÉU


Foto de La Salete Pereira





JUSTO É O CÉU
Carlos Pereira


A flor murchou tão delicadamente
e os meus olhos abertos ficaram
tristes e, dolorosamente,
duas lágrimas deles brotaram.

Justo é o céu e o ímpar saber da natureza.
Livre é o pensamento na sua grandeza.


Aveiro, 18 de Outubro de 2015
Publicado no Diário de Aveiro












sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A FORÇA DA RAZÃO



Foto de Carlos Pereira




A FORÇA DA RAZÃO
Carlos Pereira


Este mundo incrédulo, desavindo,
É como barco sem ancoradouro.
Todo o mister é bem-vindo
Como a pele quando vira couro.

Não há sol que tanto brilhe
Nem noite que tanto escureça.
Pelo longo caminho se trilhe
O que de melhor em nós se conheça.

Não sou príncipe nem reino, tenho!
Quando venço, repudio, a glória.
Carrego por vocação o pesado lenho
Contra toda a urdidura censória.

Que do bem ninguém se farte
E perante o mal não se amoleça.
Se pelo lado fraco a corda parte
É porque o mais forte não tropeça.

Se formos fieis a nós mesmos,
Urdiremos ufana bandeira.
Contra perversos feudalismos,
Seja a voz, gloriosa charneira.


Aveiro, 30 de Setembro de 2015
Publicado no Diário de Aveiro







sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O VOO DO INSECTO


Foto de Salete Pereira



O VOO DO INSECTO
Carlos Pereira


Há uma brandura na mão que afaga o rosto da tarde,
e o silêncio da noite estelar irá comover-se com esse gesto.

O voo do insecto projecta-se na seara
através do vento tórrido de um verão de pedra,
e o suor desse esforço dessedenta o sangue aceso
das veias do solo rugoso e gretado,
cemitério incandescente, onde descansam os ossos
do nosso comiserador descontentamento.

Aveiro, 31 de Agosto de 2016
Publicado no Diário de Aveiro



quarta-feira, 28 de setembro de 2016

MOMENTOS REFLEXIVOS



Foto de Salete Pereira






MOMENTOS REFLEXIVOS
Carlos Pereira


Na imperfeição do caminho há tortuosos contornos,
que são o troféu maior dos que vencem
com a veemência afirmativa da sabedoria.


Quando me detenho a olhar a natureza,
sou profundamente mais humano e imensamente feliz,
porque tudo me pertence nesse exacto momento.

Olhar, é ver muito para além de quem apenas vê
e se acomoda no entediante casulo de observador lôbrego.

Não temas percorrer o caminho sinuoso da montanha;
nela não tropeçarás.
Teme, sim, a tua marcha no caminho pedregoso,

ainda que de pequenos seixos e plano;
nele tombarás se teus passos não forem, inequivocamente,
invulneráveis e precisos.

A implacável solidão pode-nos gastar, pode-nos tombar;
corpos pendentes sobre um muro instável;
trajetória indomável do destino.
Sopro do vento a murmurar-nos memórias antanhas
e a prolongar a lentidão da noite na agonia das sombras.

A brancura da manhã adormece os meus versos
na sonolenta corrente do rio e, as palavras silenciosas,
ocupam o vazio entre a distância do alvor do teu sorriso
e o entardecer matizado pelo esplendor colorido de um amor indiviso.


Aveiro, 19 de Fevereiro de 2016
Publicado no Diário de Aveiro





quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A RARA APARIÇÃO DOS PÁSSAROS


Foto de Salete Pereira










A RARA APARIÇÃO DOS PÁSSAROS
Carlos Pereira




A rara aparição dos pássaros

bebendo a água das estrelas

e dos freáticos astros complacentes,

acicatam o núcleo contemplativo

do nosso olhar limpidamente endógeno.

Lamparinas de puro azeite, indicam o caminho

para as plúmbeas tempestades que enlaçam o cais

onde os barcos são dolentes abraços

de constelações suspensas.

Há uma condenação que nos mutila,

porque os pássaros deixaram de voar

sobre um mar auspicioso de monótona água.


Aveiro, 17 de Abril de 2016
Publicado no Diário de Aveiro





















sábado, 30 de julho de 2016

EXCENTRICIDADES



Foto de Carlos Pereira






EXCENTRICIDADES
Carlos Pereira


Quero encher os olhos de mar
e as mãos vazias com a solidão dos mortos.

Quero encher o coração com a luz do deserto
e a serenidade do céu.

Não quero que a imortalidade,
sequestre a força da onda no abraço do mar.

Não quero que a tempestade,
perturbe os pássaros no meu onírico voar.

Quero cruzar-me com a vespertina suavidade
da água que escorre pelas pedras a cantar.

Quero aprender a ser imortal e receber
flores silvestres no derradeiro momento
em que as palavras tenham sílabas sincopadas.

Quero uma torrente de bondade para irrigar as veias
dos caminhos extenuados de homens cativos.

Quero tocar o céu que é anseio antigo,
tão antigo como o próprio céu;
mas tocá-lo, não sei se consigo,
antes de o anseio ser apenas meu.


Aveiro, 13 de Dezembro de 2015
Publicado no Diário de Aveiro






segunda-feira, 20 de junho de 2016

MADRIGAL PARA UMA ROSA



Escultura em areia de José Monteiro em Albufeira
Foto de Carlos Pereira




Minha participação no evento do Grupo CAFÉ CUBANO

“Poema para una Rosa”

MADRIGAL PARA UMA ROSA
Carlos Pereira (Portugal)




Oh! Criatura de boca sedenta
de amor e de outras fontes.
Poema, Mulher glória, amamenta
os filhos e novos horizontes.

Chamam-te Rosa e não és flor.
Exalas o mais virgem perfume
com que estremeces no amor
e incendeias o corpo de espúrio lume.

Esboço de anjo com traço maculado.
Eira de pão que o diabo amassou.
Alegria e tristeza; mote para o teu fado
que a voz do tempo e da vida te cantou.

Asa protectora! Melancolia em festa!
Rota de ave sem rumo ou destino.
Liberta o último fôlego que ainda resta
na procura do altar de um deus menino.



Aveiro, 16 de Outubro de 2015
Publicado no Diário de Aveiro

In- POETAS D´HOJE  / Antologia IV – Edição Grupo de Poesia da Beira Ria – Aveiro 2017
















quarta-feira, 1 de junho de 2016

MENINO DA RUA


Imagem retirada da net






Porque hoje é dia da criança



MENINO DA RUA (reposição)
Carlos Pereira




Sou apenas um, dentre muitos,
que não está no meio da estrada que te leva.


Faço parte da parte que sabe que em muitos dias
pouco ou nada comes durante o dia.


Rebolo na relva e exalo o cheiro húmido da terra
nos finais do outono.


Faço parte da parte que sabe que vais sentir frio
nos ossos no inverno da cama.


Ouço a música das estrelas nas noites de luar
e sei de cor as canções que me ensina o mar.


Faço parte da parte que sabe que tu já perdeste
a esperança de sonhar.


Dá-me a tua mão.
Vou levar-te onde há gente que chora por ti.
Que traz uma cebola na algibeira para não usar
as suas verdadeiras lágrimas ( usam as do crocodilo)
porque podem fazer falta
para desgraças mais importantes que a tua.


A ti, menino da rua, já te secaram as lágrimas
e finges ser feliz na tua humildade.


Faço parte da parte que sabe que te roubam a mocidade,
mas também sei que jamais te usurparão a dignidade.



Aveiro, 06.04.2013

Publicado no Diário de Aveiro
in “Poetas d´hoje” / colectânea – Um grito contra a pobreza – Edição Grupo Poesia da Beira Ria - Aveiro








terça-feira, 24 de maio de 2016

DA LUZ E DO AMOR



Foto de Carlos Pereira



DA LUZ E DO AMOR
Carlos Pereira


Da luz suave dos teus olhos
desenha-se outro sol.
Um perpétuo sonho
que em mim se agrega.

Da luz diáfana do mar
outro barco regressa.
Uma lágrima de sal
por ti solidária navega.

Do calor intenso do sol
novos lumes se acendem.
Uma fogueira de amor etéreo
que tu atiças a cada entrega.

Do brilho ebriático do céu
soam harpas de querubins.
Um gládio de oiro se afoite
no calor dos corpos em refrega.

Do quente acolhedor da terra
o dormente vulcão se agita.
Um estertor orgástico complacente
é quanto o nosso êxtase adrega.


Aveiro, 6 de Outubro de 2015
Publicado no Diário de Aveiro



























sexta-feira, 29 de abril de 2016

INTERLÚDIO



Foto de Carlos Pereira





INTERLÚDIO
Carlos Pereira
 
 
Subi ao mais alto cume
para não estar só.
Quando do sol, o lume
se for, seremos apenas pó.
 
Naveguei na mais forte vaga
para não ter medo.
Quando da lua, o brilho se apaga
o amor já não é segredo.
 
Parti na mais nívea nuvem
para não deixar de sonhar.
Quando do céu, a chuva vem
a terra sente o ventre a fecundar.
 
Dormi no mais belo lençol de linho
para não sentir outra falta.
Quando do ovo, a vida exulta no ninho
a criação atinge a glória mais alta.
 
 

Aveiro, 14 de Outubro de 2015

Publicado no Diário de Aveiro