CANAL DE SÃO ROQUE

CANAL DE SÃO ROQUE

Foto de Gabriel Pereira




quarta-feira, 11 de maio de 2022

O MAR

 

Foto de Carlos Pereira






O MAR

Carlos Pereira

 

o mar é uma onda

a ziguezaguear o rio ardente dos teus lábios,

a sacudir o pólen dos teus seios

 

entre nós e o mar há um sonho

do tamanho do universo

que é fonte de secreto feitiço

 

o mar são barcos de terna loucura

na dança ancestral do amor;

são água e vento a repelir a solidão;

são remos de paz nas tuas mãos

 

Aveiro, 21.01.2022


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

DEPOIS DE TANTOS ANOS


 

Foto Salete Pereira





DEPOIS DE TANTOS ANOS

Carlos Pereira

 

quem me dera ser capaz de construir

um céu de rosas de perfume único

para o brilho calmo dos teus olhos

 

construir um céu de jovens estrelas

para o generoso coração, dádiva,

que me entregas todos os dias

 

apenas te dou, neste dia, estas parcas palavras

que são tão pouco diante da grandeza

do teu exultante amor

 

Aveiro, 16.02.2022

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

AINDA





Foto de Carlos Pereira

                                       


AINDA
Carlos Pereira


Ainda mensuro o tempo
com os olhos dos vinte anos.
Ainda enxergo a beleza
com os olhos da minha idade.

Ainda viajo no tempo
com a loucura das palavras.
Ainda bocejo outono fora
com a alegria da infância.

Ainda me detenho para colher
frutos maduros de esperança
e saborear sílaba a sílaba
os versos de cada amanhecer.

Ainda me sabe bem regressar
aos lugares onde o vento me segredou
os passos para o nosso caminho.
Ainda me faz bem amar.

Aveiro, 06 Dezembro 2021



domingo, 21 de novembro de 2021

POEMA À BEIRA MAR



                                                Foto de Carlos Pereira



POEMA À BEIRA-MAR
Carlos Pereira


as ondas vêm e vão
os pensamentos vêm e ficam

a maré aconchega-me a ilusão de me sentir
príncipe das areias e concede-me a consciência dos segredos que
viajaram a esmo nos antigos galeões 

um catraio, bom de bola, por sinal 
aplica uma "cueca" ao pai
no rosto dos passantes estampa-se
um reluzente sorriso faceiro 

sou um homem de sorte
decerto nasci com o sim senhor 
virado para a lua 

ainda assim tenho feito muito por merecê-la
repudiando imagens vesgas
que fazem mal ao coração
renegando a acidez que pode corroer
a doçura do olhar para que se sobrepuja 
a cenários holicausticos.

neste interlúdio perscrutante, contemplativo,
privei os olhos do perpassar de imagens do monstro marinho que
assolava os sete mares nas miríficas 20 000 léguas vernianas. 

Praia da Galé,  20.09.2022

domingo, 18 de abril de 2021

HAIKAI





                                                                                 Foto de Salete Pereira


HAICAI

Uma rua um caminho
A rota das flores
Regresso das gargalhadas


Óis da Ribeira, 18.04.2021

terça-feira, 17 de novembro de 2020

AMOR REABERTO

 

Foto de Carlos Pereira




AMOR REABERTO

Carlos Pereira

 

Incessante procura do caminho certo

para a casa sonhada onde a ternura golpeia,

com as tuas mãos simples. Contigo por perto

o amor fervilha, indomável, não se apeia.

 

Subiremos as ferventes dunas do deserto

se necessário for, domando, os grãos de areia

para que um beijo na minha boca, enxerto

seja; pavio de suave luz, perene candeia.

 

Abrupta emoção nos colhe, doce impulso, teia

que nos condena ao profundo azul do mar aberto.

O vento virá, profusos sons, nossa alma enxameia.

 

No nosso rio bordejam astros verdes, curso incerto,

lacónicas raízes entrelaçam afecto que campeia

na amplidão do amor, ímpar, agora reaberto.

 

Aveiro, 10.10.2020

 

 

 

 

 


quinta-feira, 12 de novembro de 2020

SINAIS DOS TEMPOS (CONFISSÃO)


Foto de Carlos Pereira


SINAIS DOS TEMPOS (CONFISSÃO)

Carlos Pereira

 

Não sou hoje mais do que fui ontem.

Admitir isto é a minha última alucinação:

é o meu lúcido momento ao lusco-fusco do entardecer

que tarda a estrela d' alva.

 

Mudar o mundo era um dos meus propósitos:

Fiz tão pouco para isso; pouco é igual ao nada que sou.

 

A pouca coragem ou a falta dela,

inibe o pensamento colectivo, dificulta a acção individual

e pode, até, perigar a peregrina liberdade.

 

Todos os meus amigos me confortaram

com abraços de bondade simiesca, dizendo:

que te não fique, mágoa, esmorecido o preito ou

apoucamento pela empresa em vão, porque também nós,

artífices do nada fazer, solidários somos; se algum feito houve,

parca memória nos abordou ao cais dos dias.

 

Agastados ficamos, tão leve punição,

pela inoperante cidadania e pela asquerosa

insensibilidade perante o sofrimento do mundo

tanto mais que, a vida, nos tem dado de presente

não poucas vezes o privilégio da ausência de tristeza.

 

Seguir um lema mesmo que circunstancial, é para nós,

humanos, uma das maiores arduidades; em contraciclo

temos a sedutora habilidade da não presunção do objectivo

para não, em caso de falência, não termos

de congeminar bastardas desculpas.

 

Nada é mais atroz do que caminhar indiferente

pela estrada incendiada de rancores ou por inóspitos trilhos,

atapetados por falsos confortos miríficos.

 

Só nos resta a fuga para o arrependimento,

para o auto flagelo do pensamento,

para o prazer mundano:

caminho tão desprezível quanto a nossa vontade.

 

Aveiro, 12.09.2020