CANAL DE SÃO ROQUE

CANAL DE SÃO ROQUE

Foto de Gabriel Pereira




quinta-feira, 18 de agosto de 2022

NÂO RARAS VEZES

 

NÃO RARAS VEZES

Carlos Pereira

 

 

não sabemos viver na vertigem plena

dos rutilantes dias

 

damos passos de adolescente incauto

e viajamos na atmosfera calamitosa do caos

 

não raras vezes

viramos as costas a nós mesmos

e assim

não retomamos o caminho que nos liberte

do cerco agressivo a que nos condenámos

 

a indiferença corrói-nos os sonhos

e agrilhoa as mentes e o pensamento

 

é tempo de nos tornarmos delinquentes das palavras

e seja arregimentada a libertação da imaginação

templo guardião da nossa devota loucura

arma cortês que nos libertará das trevas

 

talvez a nossa voz ainda possa ser ouvida

quando a sua força crescer

no seio das palavras desnudadas

na gloriosa pacificação dos gestos

 

talvez a deles

em subtil perorar reles

se deixe de ouvir

como única e omnisciente

 

 

Aveiro, 27.05.2022

 

 

 

ERA AO DOMINGO

 

ERA AO DOMINGO

Carlos Pereira

 

 

 

 

era ao Domingo que os teus olhos mais brilhavam

e os nossos espargiam singular luminosidade

os corações pulsavam em desordenado ritual

 

aquele aroma do coelho estufado

era um milagre das tuas mãos capazes

da tua habilidade maternal de mitigar a dureza da vida

 

era ao Domingo que o mundo era mais justo

e menos dissímil naquela mesa compassiva

arraigada no chão da cozinha da casa velha

 

inesquecível lembrança que trago colada

à pele da tua aristocrática dignidade

eternizado será o teu tranquilo halo de luz

 

 

 

Aveiro, 6.07.2022

 

 

APOLO VERSUS ARES

 

APOLO VERSUS ARES

Carlos Pereira

 

 

sopesaram os pesados pesos e halteres

do peso pesado

 

alguns gramas a mais

sentenciou a implacável balança

 

logo agora que fizera científica dieta

perdera a protuberante pança

excelsa figura perfeito atleta

 

adiado o combate

suspensas a emoção e a vida

 

nunca se saberá quem teria sido

o vitorioso desta peleja destituída

 

Aveiro, 16.06.2022

 

 

 

 

 

 

sábado, 16 de julho de 2022

DESTINO

Foto de Carlos Pereira





DESTINO

Carlos Pereira

 

 

Ocasionalmente, a vida não é um conflito permanente.

Há soluções que não têm problema e,

há problemas que não têm solução.

O destino é o momento de atravessar a passadeira da vida que,

na maioria das vezes, nada nos dá; é o melão que se compra á beira da estrada,

que quando é bom se saboreia com avidez e,

quando é menos bom, degusta-se com frugalidade.

O destino é o homem que mora ao nosso lado e nos cumprimenta

como se assinasse uma sentença de morte.

 

O meu destino é amar através dos lábios do mar,

do coração da terra e da alma do vento.

 

Aveiro, 1de Dezembro de 2014

 

 


 

segunda-feira, 4 de julho de 2022

DESAGUAR NO TEU DESTINO

Foto de Carlos Pereira





DESAGUAR NO TEU DESTINO

Carlos Pereira

 

 

Há pó na estrada e desânimo sem fim

Estou triste e vago

Porque já não necessitas de mim

Para te dar afago

 

Sofro todas as cruezas do inferno

E todas as dores do mundo

Quem me dera um último beijo terno

E abraçar-te num segundo

 

Quem me dera no teu corpo ser um rio a correr

E desaguar no teu destino

Quem me dera o teu amor de novo a nascer

Como castigo de um peregrino

 

Aveiro, 28.12.2014

 





 

quinta-feira, 26 de maio de 2022

SOU TÃO HUMÍLIMO COMO TU



 

Foto de Carlos Pereira




SOU TÃO HUMÍLIMO COMO TU

Carlos Pereira

 

Aqui onde o mar conflui com a vida,

comando um exército de silêncios;

sou apenas eu, só eu, poeta sem máscara e

versos sem mentira, diáfanos, como a luz.

Há um baú enterrado na areia cheio de segredos,

meus e teus, que conhecemos inequivocamente.

Mas há um, apenas um, que tu desconheces.

É o mais impactante de todos, aquele que mais me agrada;

mas tu és meu amigo e confidente, e, vou revelar-to:

Sou tão humílimo como tu, ó mar.

 

Aveiro, 28 de Junho de 2014

 








quarta-feira, 11 de maio de 2022

O MAR

 

Foto de Carlos Pereira






O MAR

Carlos Pereira

 

o mar é uma onda

a ziguezaguear o rio ardente dos teus lábios,

a sacudir o pólen dos teus seios

 

entre nós e o mar há um sonho

do tamanho do universo

que é fonte de secreto feitiço

 

o mar são barcos de terna loucura

na dança ancestral do amor;

são água e vento a repelir a solidão;

são remos de paz nas tuas mãos

 

Aveiro, 21.01.2022