CANAL DE SÃO ROQUE

CANAL DE SÃO ROQUE

Foto de Gabriel Pereira




domingo, 9 de setembro de 2018

CALHANDO, HAVEMOS DE ACREDITAR


Foto de Carlos Pereira




CALHANDO, HAVEMOS DE ACREDITAR
Carlos Pereira


Calhando, havemos de descobrir a rota de todos os mares,
encontrar o mapa para um destino desenganado;
Tecer redes, urdiduras, para capturar a
essência multicolor da hemorrágica espuma
que nos escapa por entre os arruinados dedos.
Havemos de reacender o farol primevo que antecipou
toda a sabedoria, grada ou mindinha, que nos regenerou
através dos ciclópicos tempos na demanda da embocadura do rio, onde desaguarão as memórias e os silêncios ancestrais, luz catarsia, para as vindouras primaveras.
Havemos de combater, sem tréguas, sem tibiezas,
o sucedâneo do homem-bom e o trajecto desajustado para a igualdade do anquilosado mundo risível.
Há que criar novos manuais onde a solidão e o esquecimento serão conquistas absurdas do conhecimento.
Que se estanque o sangue que corre por fora do nosso corpo em guerras torpes, que se aniquilem os exércitos que campeiam na parada de cada um em todas as pátrias.
Que se decrete à nascença, ainda no inocente berço, o poema como arma a empunhar quando beligerantes formos,
para podermos viver depois de morrer algumas vezes.
Calhando, havemos de acreditar.


Aveiro, 29 de Março de 2018
Publicado no Diário de Aveiro





segunda-feira, 13 de agosto de 2018

UM LIVRO



Foto Edições Vieira da Silva



UM LIVRO
Carlos Pereira


Gosto de ter, ler, um livro
sobretudo senti-lo nas mãos,
tacteá-lo, amá-lo, folheá-lo
 longamente, surdamente;
fitá-lo como se todo o mundo,
num segundo coubesse nele.
Com as palavras não gastas
farei um conveniente convénio;
pô-las-ei na boca de um mendigo
ou num qualquer génio.
Farei casas com telhados azuis de luz
e paredes com páginas eloquentes;
jardins com urzes a florir nos olhos
e giestas a perfumar todas as mentes.
Caminhos encruzilhados,
homens preocupados
com a rentabilidade,
a teoria da relatividade,
as equações da física quântica
e eu, que não quero saber de códigos,
medidas colectivas,
inteligência artificial,
só me preocupo com a semântica
e a drástica solidão das palavras
para que a escuridão dos tugúrios
dê lugar a alacridade do pensamento.




Aveiro, 03 de Março 2018
Publicado no Diário de Aveiro


segunda-feira, 9 de julho de 2018

SITIADOS




Foto Carlos Pereira



SITIADOS
Carlos Pereira


Há muito que as cidades
deixaram de franquear as portas.
A desordem das palavras, dos gestos,
campeia nos passeios
onde os passos
já não são vagarosos e precisos.

Das janelas,
já não se desprendem sorrisos
e os seios deixaram de antever,
púberes sonhos em corpos enfeitiçados.
Até o sol deixou de se abater
sobre os singulares beirais
e os jardins, são guetos
onde morremos muito antes das flores.


Aveiro, 18 de Janeiro de 2016
Publicado no Diário de Aveiro




sábado, 23 de junho de 2018

QUADRAS SOLTAS

Foto de Carlos Pereira



QUADRAS SOLTAS
Carlos Pereira

Em todo e qualquer momento,
sejamos vigília e contemplação.
Dêmos o mesmo deslumbramento
à obra do homem e à da criação.

Um fruto de cor madura
adormece no oásis do Outono,
enquanto uma aurora pura,
amadurece no meu sono.

Um búzio ecoa o grito distante
de uma ave triste sobre o mar,
enquanto numa vaga desafiante
outra ave, descansa, de tanto voar.

O mar extenuado canta uma canção triste
de um velho sábio marinheiro perdido.
Na praia, de joelhos dobrados, uma viúva resiste
à morte do seu homem, tristemente, vencido.

Pelas veredas da vida, subi,
mas ainda me falta chegar.
São mais os passos que previ
que os sonhos por sonhar.

Já não há barcos para o meu rumo
nem mares para sonhar.
Uma vela cai a prumo;
é o meu sonho a naufragar.

A cada dia que passa
rejuvenesce o Universo.
Por cada estrela se faça
um rio a correr dentro do verso.

Queira o tempo que nos ensine
A insânia de cada momento.
Só a sã sobriedade previne
a soberba e a falta de provimento.

Por que outro nome te chamaria,
além de amor,
além de Maria?
Talvez fruto ou flor.

No voo dissimulado do rapace
há um augúrio de morte.
Presa e predador em desenlace
de desigual sorte.


Aveiro 2016
Publicado no Diário de Aveiro








segunda-feira, 18 de junho de 2018

DO MEU CANAL DE SÃO ROQUE


Fotos de Carlos Pereira





 
DO MEU CANAL DE SÃO ROQUE
Carlos Pereira


Assim mesmo, de frente para o esqueleto,
agonizante, tristemente abandonado,
que a implacável nortada vinda da ria
lhe acentua as anárquicas escalavraduras.
Do seu interior um silêncio triste atravessa as paredes e,
vem habitar na estupefação do meu olhar.
Os airões sobrevoam, inquietos, estridentes,
aquele defunto de alvenaria arruinada,
parecendo chorar as lágrimas que deviam ser nossas.


Aveiro, 31 de Maio de 2018
Publicado no Diário de Aveiro







sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

NA TUA BOCA DESPIDA

Foto de Carlos Pereira


NA MINHA BOCA DESPIDA
Carlos Pereira



Serás canção na minha boca despida,
árida, por demais carente.
Uma fonte de água límpida
murmura o teu nome, eternamente.

Serás ave que sonha enquanto voa
no deleite de um céu sereno, azul.
Uma palavra soletrada no chão do meu peito ecoa,
enquanto um barco retorna dos mares do sul.

Serás combustão fértil do meu imaginário,
que não sucumbe ao desassossego das marés,
nem ao cansaço nos trilhos do calvário
que percorro na procura do que és.




Aveiro, 14 de Janeiro de 2016
Publicado no Diário de Aveiro


domingo, 17 de dezembro de 2017

Ó PAI, VAMOS BRINCAR, A QUÊ?



Foto de Salete Pereira






Ó PAI, VAMOS BRINCAR, A QUÊ?
Carlos Pereira




Já vai longo o rio de sangue que nos une
e a nascente que ficou para trás persegue-me.
Há memórias e imagens que flutuam
nesse rio de sangue; planície fértil, alento,
âncora da nossa feérica existência.
Nada tenho para deixar a não ser,
a certeza de vos querer bem.
Não conspurquem a Natureza nem desmotivem
o sensato movimento da Terra.
Olhem o entardecer crepuscular à beira-mar;
façam-no por mim, ainda que esse gesto, seja
uma luz ínfima para evitar
o desmoronamento da casa-Mãe.
Nunca vos disse do amor que nutro; 
o amor não se diz, não é palpável, sente-se
desde a raiz das veias até à copa da alma.
O vosso choro infantil é nostalgia redobrada,
e o vosso olhar, aceitando-me com os defeitos
do barro criador, penetra-me a carne,
com a mesma felicidade quando vos ouvia:
Ó pai, vamos brincar, a quê?



Aveiro, 19 de Junho de 2017
Publicado no Diário de Aveiro