CANAL DE SÃO ROQUE

CANAL DE SÃO ROQUE

Foto de Gabriel Pereira




segunda-feira, 18 de junho de 2018

DO MEU CANAL DE SÃO ROQUE


Fotos de Carlos Pereira





 
DO MEU CANAL DE SÃO ROQUE
Carlos Pereira


Assim mesmo, de frente para o esqueleto,
agonizante, tristemente abandonado,
que a implacável nortada vinda da ria
lhe acentua as anárquicas escalavraduras.
Do seu interior um silêncio triste atravessa as paredes e,
vem habitar na estupefação do meu olhar.
Os airões sobrevoam, inquietos, estridentes,
aquele defunto de alvenaria arruinada,
parecendo chorar as lágrimas que deviam ser nossas.


Aveiro, 31 de Maio de 2018
Publicado no Diário de Aveiro







sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

NA TUA BOCA DESPIDA

Foto de Carlos Pereira


NA MINHA BOCA DESPIDA
Carlos Pereira



Serás canção na minha boca despida,
árida, por demais carente.
Uma fonte de água límpida
murmura o teu nome, eternamente.

Serás ave que sonha enquanto voa
no deleite de um céu sereno, azul.
Uma palavra soletrada no chão do meu peito ecoa,
enquanto um barco retorna dos mares do sul.

Serás combustão fértil do meu imaginário,
que não sucumbe ao desassossego das marés,
nem ao cansaço nos trilhos do calvário
que percorro na procura do que és.




Aveiro, 14 de Janeiro de 2016
Publicado no Diário de Aveiro


domingo, 17 de dezembro de 2017

Ó PAI, VAMOS BRINCAR, A QUÊ?



Foto de Salete Pereira






Ó PAI, VAMOS BRINCAR, A QUÊ?
Carlos Pereira




Já vai longo o rio de sangue que nos une
e a nascente que ficou para trás persegue-me.
Há memórias e imagens que flutuam
nesse rio de sangue; planície fértil, alento,
âncora da nossa feérica existência.
Nada tenho para deixar a não ser,
a certeza de vos querer bem.
Não conspurquem a Natureza nem desmotivem
o sensato movimento da Terra.
Olhem o entardecer crepuscular à beira-mar;
façam-no por mim, ainda que esse gesto, seja
uma luz ínfima para evitar
o desmoronamento da casa-Mãe.
Nunca vos disse do amor que nutro; 
o amor não se diz, não é palpável, sente-se
desde a raiz das veias até à copa da alma.
O vosso choro infantil é nostalgia redobrada,
e o vosso olhar, aceitando-me com os defeitos
do barro criador, penetra-me a carne,
com a mesma felicidade quando vos ouvia:
Ó pai, vamos brincar, a quê?



Aveiro, 19 de Junho de 2017
Publicado no Diário de Aveiro








sexta-feira, 30 de junho de 2017

ENTRE A RAIZ E A SEMENTE

Foto de Gabriel Pereira





ENTRE A RAÍZ E A SEMENTE

Carlos Pereira



Ó força brutal! Ó fúria

desmedida!

Não é de incúria

que vive a vida.



Ó breve momento

entre a raiz e a semente;

quem faz da vida um lamento,

morre tão lentamente.




Aveiro, 28 de Junho de 2015
Publicado no Dário de Aveiro




quarta-feira, 17 de maio de 2017

UM DEUS MENINO



Imagem retirada da net



UM DEUS MENINO
Carlos Pereira

Todo o mundo me cabe na mão
tão grandes são as raízes dos dedos.
No coração cabe-me toda a terra enxuta
e um deus menino que me escuta
e conta todos os seus segredos,
para que seja meu irmão.


Aveiro, 8 de Outubro de 2015
Publicado no Diário de Aveiro


quarta-feira, 19 de abril de 2017

DOCE SENSAÇÃO



Foto de Carlos Pereira






DOCE SENSAÇÃO
Carlos Pereira

É de espanto o meu olhar
perante o nascer do dia
no areal dos teus passos.


Inebriado fico
no interior do mel quente
dos teus braços.



Aveiro, 21 de Junho de 2015
Publicado no Diário de Aveiro



domingo, 19 de março de 2017

DIA DO PAI



Foto de Carlos Pereira




o poema mais puro habita em mim. por isso
sei-o de cor. o meu pai levava-me às
cavalitas porque era de noite e eu não via
onde punha os pés. o meu pai atravessou
o esteiro a nado, comigo às costas, porque eu
ainda não sabia nadar e o regresso a casa
era mesmo ali depois da outra margem.


Aveiro, 24 de Fevereiro de 2015