CANAL DE SÃO ROQUE

CANAL DE SÃO ROQUE

Foto de Gabriel Pereira




sábado, 17 de agosto de 2019

Foto de Carlos Pereira




OS SONHOS OS DEUSES E OS HOMENS
Carlos Pereira


Nunca seremos do tamanho dos nossos sonhos,
tão pouco consentiria a vida.

Alcandoremo-nos ao píncaro mais alto
onde não há destino nem sorte,
apenas o que a vida consente e não é tão pouco.

Seremos apenas do tamanho da Natureza,
não de toda, mas da que alimenta a glória
da prodigalidade de vivermos mais um instante.

Aceita o mundo como homem livre,
contempla o sol, não divino mas mágico;
magia que teus olhos enxergam despidos de ódio,
virtude que o coração não ignora nem repudia,
porque também o Amor e a Liberdade são a sua pátria.

Nas horas amargas em que se engelha a alma,
ri de ti mesmo, profusamente, com a certeza única
de que os deuses são quem mais se nos assemelha.

Os deuses são a sombra dos homens e,
os longos silêncios, perpectuam a indiferença
com que, por vezes, se passa pela vida.

Ignoramos o espaço entre a primavera onde nascemos
e o verão onde amadurecemos com os frutos,
porque nos dá jeito entregar o leme da infausta navegação
aos malogrados deuses.

Olha-te como imagem do mar de um azul febril,
aceita-te com a roupagem dos campos e searas
com que se engalanam para o festim das cores:
consagra-te, débil criatura, como dádiva agradecida da vida.

Rejeita a debilidade pela força da mente;
forte é a imarcescível beleza da Natureza.

O limite não é um princípio nem um fim
antes um desejo calculado, imposto,
pela anárquica civilização dos novos tempos.

Ávido de amor, ousa desafiar os deuses
na gloriosa viagem ao interior do nosso magma
para que se humanizem.

Nunca ambiciones a aura endeusada
que lhes pertence por linhagem celeste,
desígnio que esboçado fosse,
tua condição terráquea o condenaria.

Sempre que te aprouver mistura-te com a simples gente,
serás do tamanho da liberdade, maior do que a honra
que os deuses te possam conceder.

No restolho da derradeira colheita,
junta as mãos em concha e recolhe
o maior número de sementes possível,
porque a jornada poderá ser alegre e longa.

Perante as tumultuosas águas do rio
e do inevitável sortilégio dos homens, sê insubmisso,
cordial sejas, diante da enigmática erudição dos deuses.

Sonhemos que ainda há tempo
se a tanto nos ajude a indelével beleza do mar
e a tranquila bonomia dos deuses.

Que o imenso areal, que confina a desejada esperança
e a suprema luz, seja pequeno para palco
da alegria dos homens e da glória dos deuses.

Homens e deuses, nada temam,
a não ser a injustiça a fome
e a inutilidade do sofrimento.


Aveiro, 01 de Agosto de 2019
Publicado no Diário de Aveiro

























sexta-feira, 12 de julho de 2019

ALENTEJO TRIGUEIRO

Foto de Carlos Pereira




ALENTEJO TRIGUEIRO
Carlos Pereira


Alentejo, Alentejo trigueiro!
Moço de cantar sereno;
Tem, de pão, prenhe o celeiro
E um coração nada pequeno.


Ceifeira de olhar fagueiro,
Papoila de corpo moreno;
Altivo, ágil, fandangueiro
Bailando em chão de feno.


Ceifa, rindo e cantando,
Com seus generosos braços.
Com o coração vai orando
A Deus, que guie seus passos,


Para aquele por quem amando,
Vive um grande amor de fortes laços.
À tardinha fica por ele esperando,
Junto à fonte, por beijos e abraços.



Aveiro, 12 de Maio de 2015
Publicado no Diário de Aveiro




quinta-feira, 8 de novembro de 2018

MUNDO DESUMANIZADO


Foto de Carlos Pereira




MUNDO DESUMANIZADO
Carlos Pereira

Neste mundo desumanizado, cruel, mercantilista,
o oportunista supera o cuco na usurpação do ninho.
O ego incha a cada investida, calculada, narcisista,
avolumando a vil vaidade,  perfil mesquinho.

Manipulados com afã por uma sociedade miserabilista,
sem apego sem escrúpulos, para o atro escaninho,
onde nos coartam, vilmente, o rumo existencialista.
Voragem intempestiva, adamastor, falseando o caminho.

Engrenagem maquiavélica, dilacerante, atentatória
Do percurso leniente, merecido, a todo o momento.
Imoral conduta do nosso destino, falsa probatória,

Dos pardacentos instintos que adulteram a memória.
Até a vida nos podem profanar, mas não o pensamento,
esse rio onde navegamos, sós, unos, construindo história.

Aveiro, 19 de Outubro de 2018
Publicado no Diário de Aveiro








quinta-feira, 4 de outubro de 2018

MULHER


Óleo s/ tela de Salete Pereira



MULHER
Carlos Pereira

Desata-me este nó de ilusão
Dá-me asas para voar
Se acordado estiver
Canta-me uma canção
Para que possa ficar
Sempre ao pé de ti, mulher

Vieste ao mundo
E não foram cantados hinos
Só canções de embalar
Fizeste de um amor vagabundo
Um homem de gestos finos
Apenas para te amar



Aveiro, 11de Janeiro de 2015
Publicado no Diário de Aveiro



domingo, 23 de setembro de 2018

MULHER-IMENSIDÃO


Foto de Salete Pereira







MULHER-IMENSIDÃO
Carlos Pereira


Já nada me fascina
a não seres tu quando vestes
a pele de mulher-imensidão,
mulher- universal
ou te abres em seara madura
no fim do verão.

Já nada me entristece
a não ser quando vertes
uma lágrima tão antiga,
tão profunda,
que inunda o rio
onde gasto os dias e
detenho as horas
na tua espera.

Já nada me cansa
depois da lúcida contemplação
dos oníricos crepúsculos,
a não ser a noite,
que me circunda de medo e
me devora em instantes
de pungente angústia.

Já nada me encanta
a não ser quando desces a rua
quando sobes a vida,
quando não te dás por vencida
e aceitas outras verdades
para além da tua.

Já nada me acalma
a não ser o sopro aveludado do teu olhar,
penetrando nas perpétuas memórias
que encerramos e entrelaçamos,
em abraços de recôndito amor.



Aveiro, 17 de Junho de 2017
Publicado no Diário de Aveiro











domingo, 9 de setembro de 2018

CALHANDO, HAVEMOS DE ACREDITAR


Foto de Carlos Pereira




CALHANDO, HAVEMOS DE ACREDITAR
Carlos Pereira


Calhando, havemos de descobrir a rota de todos os mares,
encontrar o mapa para um destino desenganado;
Tecer redes, urdiduras, para capturar a
essência multicolor da hemorrágica espuma
que nos escapa por entre os arruinados dedos.
Havemos de reacender o farol primevo que antecipou
toda a sabedoria, grada ou mindinha, que nos regenerou
através dos ciclópicos tempos na demanda da embocadura do rio, onde desaguarão as memórias e os silêncios ancestrais, luz catarsia, para as vindouras primaveras.
Havemos de combater, sem tréguas, sem tibiezas,
o sucedâneo do homem-bom e o trajecto desajustado para a igualdade do anquilosado mundo risível.
Há que criar novos manuais onde a solidão e o esquecimento serão conquistas absurdas do conhecimento.
Que se estanque o sangue que corre por fora do nosso corpo em guerras torpes, que se aniquilem os exércitos que campeiam na parada de cada um em todas as pátrias.
Que se decrete à nascença, ainda no inocente berço, o poema como arma a empunhar quando beligerantes formos,
para podermos viver depois de morrer algumas vezes.
Calhando, havemos de acreditar.


Aveiro, 29 de Março de 2018
Publicado no Diário de Aveiro





segunda-feira, 13 de agosto de 2018

UM LIVRO



Foto Edições Vieira da Silva



UM LIVRO
Carlos Pereira


Gosto de ter, ler, um livro
sobretudo senti-lo nas mãos,
tacteá-lo, amá-lo, folheá-lo
 longamente, surdamente;
fitá-lo como se todo o mundo,
num segundo coubesse nele.
Com as palavras não gastas
farei um conveniente convénio;
pô-las-ei na boca de um mendigo
ou num qualquer génio.
Farei casas com telhados azuis de luz
e paredes com páginas eloquentes;
jardins com urzes a florir nos olhos
e giestas a perfumar todas as mentes.
Caminhos encruzilhados,
homens preocupados
com a rentabilidade,
a teoria da relatividade,
as equações da física quântica
e eu, que não quero saber de códigos,
medidas colectivas,
inteligência artificial,
só me preocupo com a semântica
e a drástica solidão das palavras
para que a escuridão dos tugúrios
dê lugar a alacridade do pensamento.




Aveiro, 03 de Março 2018
Publicado no Diário de Aveiro