CANAL DE SÃO ROQUE

CANAL DE SÃO ROQUE

Foto de Gabriel Pereira




domingo, 28 de dezembro de 2014

IMENSO



Foto de Carlos Pereira




IMENSO
Carlos Pereira
 
o céu é imenso. o mar é imenso.
ambos são azuis e imensos. até para lá do infinito.
o pensamento é imenso. o amor é imenso.
ambos são inexpugnáveis e imensos. até para além da morte.
 

Aveiro, 22.12.2014

 


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

SOU EU OU OUTRO POR MIM



Foto de Carlos Pereira



SOU EU OU OUTRO POR MIM
Carlos Pereira


Sou eu ou outro por mim
Que sonha como eu, sendo eu assim
Tão real por dentro e por fora;
Um e outro somos a criança de outrora.


Sou eu infinito jardim,
Pétala que se desprende de mim.
Bem quista luz da aurora;
Uma e outra são a infância que demora.



Aveiro, 01.03.2013


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

É-ME DFÍCIL ACEITAR OS ESTÍMULOS VISCOSOS



Imagem retirada da Net




É-ME DIFÍCIL ACEITAR OS ESTÍMULOS VISCOSOS

Carlos Pereira


É-me difícil aceitar os estímulos viscosos

vindos de quem se julga superior aos demais.


Admito que me faltam os tiques dos meninos

que estudaram num qualquer colégio francês ou alemão.

Que sou rude com as palavras e com os gestos.

Confesso que nunca pude dizer:

- O meu pai mandou o chauffeur buscar-me à escola no mercedes

ou quando chegar a casa a Maria vai preparar um lanche com leite e chocolate,

torradas com manteiga, queijo e compota de morango.

Mas pude dizer:

- Joguei à bola, feita de uma meia velha já bastante remendada

e com trapos também velhos e gastos. Apanhei girinos nas poças de água

nascidas das primeiras chuvas de Outono.

Sabia o nome dos pássaros pelo seu canto e tinha amigos leais.

Confesso que nunca pude dizer:

- O meu pai levou-me a visitar o jardim zoológico.

Mas pude dizer:

- O meu pai levou-me à pesca, ensinou-me a utilizar a cana,

os diversos tipos de anzol e a panóplia de iscos.


É-me difícil aceitar os estímulos viscosos

vindos de quem se julga superior aos demais.


Avança. Marcha. Bate com vigor a bota na parada.

Bate a continência. Salva a nação e a aparência.

Olha a boina, recruta, está mal colocada.

Ó nosso pronto quem o ensinou a marchar.

Que falta de elegância, que inoperância.

Ó nosso cabo leve o jipe ao comando que o nosso general

quer ir ao ninho matar saudades da sua jovem namorada.

Acabaram as munições. Acabou a guerra.

Quem a ganhou?

- Fomos nós, que tínhamos poemas de combate em vez de aviões e de um

submarino decrépito e ferrugento, que nunca tirou a cabeça debaixo de água;

se fosse areia seria uma avestruz.

Truz! Truz!

Quem é?

- Somos nós que fomos ao lado de fora, para aquilatar a veracidade do que dizem.

Mas é mentira o que estão a dizer, o que disseram e o que irão dizer no futuro.


É-me difícil aceitar os estímulos viscosos

vindos de quem se julga superior aos demais.


 O tempo e os rios passam lentos e é tão difícil sofrer neste país;

 talvez por isso o nosso extermínio não seja exequível.


 Aveiro, 21.02.2014

 Publicado no Diário de Aveiro

 Dito no programa de fados e poesia, “Solar da Bairrada”, pelo fadista e poeta José Guerreiro na Rádio Província de Anadia

in "Poetas d'hoje / Antologia  Edição Grupo de Poesia da Beira Ria / Aveiro 2016


quinta-feira, 9 de outubro de 2014

SER, TER E SABER



Foto de Carlos Pereira




SER, TER E SABER
Carlos Pereira


Ainda que pareça ser
o que não sou; sou o que pareço....

Entre ser e parecer,
sou aquele que me conheço.

 
Ainda que pareça ter
o que não tenho; tenho o que mereço.
Entre ter e merecer,
sou aquele que agradeço.

 
Ainda que pareça saber
o que não sei; sei o que teço.
Entre saber e compreender,
sou aquele que amanheço.



Aveiro, 17.03.2014

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

PEÕES DO XADREZ



Imagem retirada da net



PEÕES DO XADREZ

Carlos Pereira

 

 

Sou e ao mesmo tempo também és.

Somos apesar de tudo e da irracional avaliação sobre a turba.

Somos pouco.

Somos muitos.

Somos mais do que já fomos.

Se eles te disserem que gastam o tempo e o nosso dinheiro,

a acautelar o teu futuro a melhorar a tua vida e a suavizar a tua morte;

Não acredites.

Estrebucha.

Não amoches por dá cá aquela palha.

Mostra-lhes que és tu quem trabalha.

Atira-lhes facas à consciência, embora saibas, e eles também sabem que não a têm.

Cospe-lhes o teu melhor veneno, embora saibas, que eles o tomam por inócuo.

Investe com todos os cornos contra a besta negra.

Infligi-lhes o estoque com um apropriado remoque.

Não te mutiles com as palavras que nunca tiveste coragem de dizer.

Não desistas. Quem não arrisca não petisca.

Defronta-os. Nem que tenhas de subverter o jogo e utilizar tantos cavalos quanto os peões deles.

Não te esqueças, que quando acaba o jogo, quem morre é quase sempre o rei.

 

 

Aveiro, 26.04.2014

 

 

 




terça-feira, 19 de agosto de 2014

ABRAÇASTE-ME SILENCIOSA





Foto de Carlos Pereira



ABRAÇASTE-ME SILENCIOSA
Carlos Pereira




Bebi água no arroio da manhã
e os meus lábios disseram o teu nome,...

pois era grande a sedenta vontade de te ver.
E tu abraçaste-me silenciosa, tão silenciosa,
que a manhã não deu por nada.
Amanhã, virei aqui no limiar da noite,
quando as sombras trazem todos os barcos do mar
até às praias guardadas na nossa memória,
dizer-te que não adiarei mais as manhãs
que hão-de trazer a luz do sol,
que iluminará os lábios da tua boca acesa.
Ouviremos a plangente música
do choro das ondas do mar
e escutaremos as palavras sublimes
esculpidas nas estrofes do poema.




Aveiro, 09.04.2014

terça-feira, 15 de julho de 2014

gota de água



Foto retirada da net






gota de água      
Carlos Pereira
ínfima gota de água
coesão molecular translúcida
força e destreza
moves o moinho e o futuro
-H2O-
moves a mó que mói o grão
que germina em cada mão
transportas a vida nas margens do tempo
és silêncio na lágrima que rola pela ruga da pele
lambes as feridas da terra gretada
és grito na onda do mar que o vento impele
caminho da nau à praia regressada
és começo de história
sussurro bucólico do regato da minha infância
livro de sonhos e de memória
natureza em flor exsudando exclusiva fragrância
és festa quando por sobre as searas em medrança
vertes teu sangue de vida afastando a desgraça
és um poema nos olhos de uma criança
música inebriante batendo na vidraça

Aveiro, 03.06.2014

in "Poetas d'hoje / Antologia - Edição Grupo de Poesia da Beira Ria / Aveiro 2016
Publicado no Diário de Aveiro




domingo, 6 de julho de 2014

OLHAR



Óleo s/ tela de Salete Pereira




OLHAR
Carlos Pereira
 


Um copo de vinho tinto meio cheio
sobre a mesa carcomida.
Uma vida meio desfeita, mal vivida,
um livro e um amor que ficaram a meio.
 
Corre alazão, veloz, só com o freio
que a minha mão perdeu a brida;
com o espectro constante do receio
a morte sobrepõe-se sempre à vida.
 
O que se perdeu, perdido está
para lá das memórias esfumadas
e das esperanças já cansadas.
 
O que se ganhou, nunca será
mais do que uma réstia de felicidade
num mundo grotesco de inumanidade.
 

 

Aveiro, 26.01.2014

Publicado no Diário de Aveiro

 

 


domingo, 29 de junho de 2014

CABRA CEGA




Imagem retirada da Net





CABRA CEGA
Carlos Pereira
 
Cabra cega. Bode cego de amores
Por outra cabra tão cega como aquela.
Cabra que já não aguenta mais as dores
Por tanto lhe calcarem a espinhela.
 
Cabra escrava. Bode de maus humores
Tão infeliz e escravo quanto ela.
Cabra para prestar alguns favores
Aos verdugos incluindo o dela.
 
Cabra cega e escrava de um velho bode;
A pouca sorte bateu-lhe cedo à porta.
Não é sortudo nem feliz quem pode.
 
Só quem nasce de assento virado para a lua
Pode evitar uma vida dolorosa e torta
Como a da cabra cega escrava, tão crua.
 
 

Aveiro, 03.02.2014

Publicado no Diário de Aveiro

 

 


domingo, 22 de junho de 2014

SOERGUE-TE Ó MÃO AGRILHOADA



Foto retirada da Net



SOERGUE-TE Ó MÂO AGRILHOADA
Carlos Pereira
 
 
Resvalam na apatia as palavras dos sábios e,
ecoam tonitruantes as dos deuses inúteis;
umas e outras são o espectro da
inutilidade brejeira dos caudilhos,
que adoçam ou acidulam os nossos sonhos.
 
Soergue-te, ó mão agrilhoada!
Liberta-te da peçonha antiga e,
começa a desenhar o teu próprio caminho.
 

 

Aveiro, 27.03.2013

 




domingo, 15 de junho de 2014

ENCONTRO COM ALBERTO CAEIRO



Foto de Carlos Pereira




ENCONTRO COM ALBERTO CAEIRO
Carlos Pereira
 
 
Havia um silêncio suspenso, tão profundo,
que se ouvia com uma nitidez transparente
o ranger das paredes, soltando as suas dores
em forma de música gregoriana.
A luz do sol, através de um estore a necessitar de conserto,
incidia sobre a mesa iluminando a folha
em que escrevera o título: «A solidão às vezes»;
para um possível poema.
Eu era o único cliente naquele café de paredes austeras
de granito de muitos séculos com histórias e segredos,
que tentava decifrar através de imagens que perpassavam
diante dos meus olhos como num filme dos anos trinta.
Absorto no meu estado de letargia, os meus sentidos,
auditivo e visão, não me deram conta da chegada de uma figura
de aspecto seráfico, misterioso, de olhar contemplativo.
Posso sentar-me, perguntou, ao mesmo tempo que os seus olhos
se fixavam na folha de papel iluminada pelo sol cálido da tarde.
Peço mil desculpas pela interrupção, disse com convicção
e humildade, apresentando-se como alguém que escrevia versos.
Não tem de quê, retorqui em tom tranquilizador: o meu inócuo poema
pode ser adiado por uma conversa reflexiva e libertadora.
 
 

Aveiro, 28.02.2014

Publicado no Diário de Aveiro

 

 


quarta-feira, 4 de junho de 2014

O POEMA



Foto de Carlos Pereira




O POEMA
Carlos Pereira
 
O poema não será nada mais
para além do que a palavra permitir
no fugaz momento de uma sílaba,
acocorada na pele de um tambor.
 
Será a estrada que nos conduz
através do sinuoso declínio do homem
enquanto ser superior numa hierarquia,
mesquinha e manipuladora.            
 
Será o toque a rebate para nos unirmos
no adro da consciência imaculada
para derrubarmos os exércitos eufemísticos,
que teimosamente nos garroteiam.
 

 

Aveiro, 03.03.2014

 


sexta-feira, 16 de maio de 2014

NUNCA SABEREI TUDO



Foto de Carlos Pereira






NUNCA SABEREI TUDO

Carlos Pereira

 

 

 

Nunca saberei tudo! Ninguém sabe tudo!

Saber mais deve ser o objectivo de cada um,

para poder afirmar: nunca saberei tudo.

 

Quem quer saber mais, aprende.

Quem aprende, sabe mais.

Sabe mais.

Sabe tanto.

Sabe tanto ou mais.

Sabe muito.

Sabe muito mais.

Sabe mais ou menos, para dizer que nunca saberá tudo.

 

Se perguntarem a quem sabe muito, por que é azul a água do mar, responderá:

- Esta questão tem a ver com a Física; o que determina a cor

é a quantidade de luz solar que incide sobre a água e a sua profundidade,

as partículas suspensas nela e o comprimento de onda da luz que é reflectida.

 

Se me perguntarem, a mim que sei muito pouco, respondo:

- O mar é o céu com água e com peixes em vez de estrelas.

Mas isso sou eu que sou poeta.

 

Quem me dera não saber nada, eu que sei tão pouco.

Assim não discordava do que dizem os que sabem tanto ou, tanto ou mais, muito ou

muito mais, e, esses não se davam ao trabalho de discordar das minhas opiniões,

porque eu nem sequer dominava os argumentos para as emitir, malgrado meu.

 

Por que somos tão próximos das pedras, das árvores, dos rios e dos montes,

dos mares e do sol que nem sequer pensam ou sabem que existem?

 

É na ambiguidade de uma possível resposta a esta simples semântica
que assenta a evidência do meu princípio opinativo:

Nunca saberei tudo! Ninguém sabe tudo!






Aveiro, 08.05.2014

Publicado no Diário de Aveiro

 


terça-feira, 13 de maio de 2014

NÂO DEMORES O MEU ABRAÇO



Foto de Carlos Pereira




NÃO DEMORES O MEU ABRAÇO
Carlos Pereira
 
 
Deambulo entre a multidão na cidade desperta
Mas sinto-me tão só com a tua ausência.
Um nó de saudade o meu coração, aperta,
E aviva a sensata lembrança da tua existência.
 
Os meus sentidos estão em estado de alerta
Num anseio ardente da tua comparência
Para que a minha alma de tristeza, coberta,
Rejubile e apague a dolorosa impaciência.
 
Não demores o meu abraço nem a palavra amor,
Que te darei num beijo tão puro e soletrado.
Vem, não adies esta melancolia, quase dor.
 
Não voltes ao meu sonho tantas vezes sonhado
Sem te ver mais um dia. Ao céu um louvor
Enviarei se te vir no meu sonho, acordado.
 
 
Aveiro, 21.06.2013 

Publicado no Diário de Aveiro

 

 

 

 

 

 

 

 

 


sexta-feira, 9 de maio de 2014

APENAS



Foto de Carlos Pereira





APENAS
Carlos Pereira
 
Sou,
entre os teus olhos e o relâmpago;
Água e fogo.
Desejo secreto de ti.
 
És,
entre a madrugada furtiva e o estremecimento;
Asas e vertigem.
Desejo incendiado de mim.
 

Aveiro, 04.04.2014