CANAL DE SÃO ROQUE

CANAL DE SÃO ROQUE

Foto de Gabriel Pereira




domingo, 29 de abril de 2012

CANÇÃO DE ADORMECER



Foto de Carlos Pereira




CANÇÃO DE ADORMECER
Carlos Pereira



Vem devagar, devagarinho, sem pressa,
Traz as palavras que te expandem a boca;
Traz a força do grito, aventurado, que impeça
A tortura que a tua ausência provoca.

Desfia, pura e bela, o linho puro desta mágoa,
Escurece-me os cabelos brancos desta vida
E enxuga, com o teu olhar, os meus olhos rasos de água.
Embala o meu peito, quando nele for, a morte pressentida.

Quando a noite vier, generosa e límpida, sussurra-me
Uma canção, com palavras de amor, a sair do teu seio,
Numa procissão de estrelas e lágrimas floridas da lua.

Quando a manhã raiar, vagarosa e diáfana, murmura-me
Um poema, sem palavras de dor, que na tua pele leio,
Em convulsões ritmadas de mim na tua carne nua.



Aveiro, 10.04.2012







quarta-feira, 25 de abril de 2012

INTEGRIDADE



Foto retirada da Net



Reedito este poema, hoje 25 de Abril, para homenagear, ainda que de uma forma singela o Capitão Salgueiro Maia, HOMEM INTEGRO de elevada estatura moral e de honradez a todos os títulos singular. Que nunca seja esquecido este enorme vulto da nossa história recente.





INTEGRIDADE
Carlos Pereira

                                 À memória de Salgueiro Maia



Abomino as asas, que me trouxeram de volta
Ao cosmos do caos.
Repudio a conceptualização mimética,
Pasto abundante dos estereótipos
Que escoram as mentes acéfalas do poder.
Angustia-me o silêncio dos bons,
Mais do que a bravata dos usurpadores;
Mas regozijo-me com a honradez dos
Homens íntegros, que apenas anseiam
Regressar à sombra depois da conquista.


Aveiro, 30.10.2011

in "Poetas d'hoje" Antologia III - Edição Grupo de Poesia da Beira Ria / Aveiro 2016

quarta-feira, 11 de abril de 2012

EM ABRIL



Foto de Piedade Araújo Sol


EM ABRIL
Carlos Pereira


Deram-nos dias e primaveras de esperança
Em cravos vermelhos na mão de uma criança,
A força da palavra e a luz alva do dia,
A comunhão de todo um povo em alegria.
Fomos felizes, amámo-nos como irmãos;
Fizemos poemas, cantámos, demos as mãos.
Deram-nos a força da liberdade que corre nas veias.
Libertaram-nos da morte que a aranha tece nas teias.
Prometeram-nos searas de pão e alecrim aos molhos,
Trabalho todos os dias e cultura à noite para os olhos.
Deixámos de ser um povo triste e amordaçado!
Hoje, voltámos a ser de novo, um país desgraçado.


Aveiro, 04.04.2012

segunda-feira, 2 de abril de 2012

AMOR REAL



Foto retirada da Net




AMOR REAL
Carlos Pereira

Vassalo comprometido perante ti, sou,
Vergado ao encanto sedutor da tua aura.
Deste mundo, sem teu amor, me vou,
Num peregrinar de anacoreta sem laura. *

No renovar perpétuo da minha paixão,
Entrelaço-me nos braços áridos da dor.
Dos teus olhos a luz, é de compaixão;
Dos meus, é brilho translúcido do alvor.

Teu trono de rainha nunca o desejei,
Nem tão pouco a coroa da tua riqueza;
Minha espada, minha vida, te entreguei,

Como testemunhos da minha sageza.
Se no reino do teu coração, não entrarei,
Ao menos aceita este amor, com realeza.

Aveiro, 29.03,2012

*antiquado designação oriental de cada uma das celas utilizadas por alguns anacoretas.