CANAL DE SÃO ROQUE

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Foto de Gabriel Pereira




domingo, 7 de outubro de 2012

TENHO QUE FAZER UM POEMA

 
 
Foto de Carlos Pereira
 
 
 
 
 
 
 

TENHO QUE ESCREVER UM POEMA
Carlos Pereira
 
Sentei-me ao lado da janela na,
única mesa que tem apenas uma cadeira.
Assim, ninguém perturbará o silêncio
das palavras que me chegam do sol nem
o voo da ave que limita o espaço entre o papel e o poema.
Não pertenço a este lugar, aliás, nunca pertenci
a lugar nenhum. Os lugares é que me pertencem,
emocionalmente, porque os absorvo em cada gesto
do meu olhar; em cada momento de pausa
na inspiração da terra; em cada espaço em que a pedra
se agita e a tua imagem surge bela e granítica.
Há no ar, acordes de uma canção com esboços
do teu corpo a pairar no equilíbrio da manhã.
Os meus olhos incendeiam-se e a minha mão
tremula, indecisa, entre o verso que não nasce e
o punho que desenha o teu ventre numa tela
harmoniosa de água e fogo.
Não vou escrever as palavras que sonhei de noite,
enquanto os barcos com velas e homens, feitos
de ansiedade, retornam ao porto de onde nunca saíram.
Tenho que escrever um poema; não com palavras dos poetas
que essas não sei, mas com as palavras que saem das
tuas ancas que giram ao sol e dos teus músculos
que retêm o barro que nos modela; com as sílabas
do teu corpo, com os versos dos teus braços que
me abraçam com as raízes da árvore que bebe a água do rio e
que há-de levar-me até ao mar da minha infância.
Tenho que escrever um poema, mas a minha mão
ainda tremula, indecisa, entre o verso que não nasce e
o poema de palavras inúteis.
 
 

Aveiro, 27.06.2012

 

 

 

 



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